Economia Em Alta É Trunfo Para Pedir Reajuste Salarial

Expectativa de crescimento de 5,8% do PIB, criação de 2 milhões de empregos em 2010, além da falta de mão de obra qualificada podem ser usados como argumento na hora de conversar com o chefe sobre seu futuro na empresa

O jogo virou em 2010. O reaquecimento da economia brasileira deixou a crise no passado e trouxe “a faca e o queijo” de volta às mãos dos trabalhadores nas negociações salariais deste ano. O momento é bom tanto para quem é sindicalizado e pertence a uma categoria organizada quanto para o funcionário que quer pleitear aumento por conta própria.

A expectativa de crescimento de 5,8% do Produto Interno Bruto (PIB) para 2010, a previsão de criação de 2 milhões de empregos no ano e a falta de profissionais qualificados no mercado podem ser argumentos para quem busca a valorização profissional, principalmente de ordem financeira.

“O conjunto de indicadores está muito favorável ao trabalhador. O cenário positivo que se desenhava nos últimos anos foi interrompido pela crise no fim de 2008 e durante 2009. Mas, agora, a retomada do crescimento econômico torna a negociação menos difícil”, afirma José Silvestre Prado de Oliveira, coordenador de Relações Sindicais do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese).

Os sindicatos já perceberam o reaquecimento da economia – também sentido na pele pelo trabalhador, ocupado por muita hora extra para atender à demanda das empresas. Há categorias dispostas a reivindicar até 10% de aumento real (reajuste acima da inflação), como é o caso dos profissionais da construção civil.

“Achamos que vamos conseguir um aumento razoável este ano, pois além da economia favorável, temos falta de profissionais no mercado. As empresas terão de valorizar seus funcionários para que a demanda possa ser atendida no prazo determinado para as obras”, comenta Antonio de Souza Ramalho, presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção Civil de São Paulo (Sintracon-SP).

Mesmo com todos os argumentos favoráveis, as greves não estão descartadas. “Já estamos organizando uma paralisação para o fim de abril, começo de maio. As negociações, na maioria das vezes, só fluem na base da pressão”, afirma o líder sindicalista. A data-base dos trabalhadores da construção civil é 1º de maio.

De acordo com Sergio Amad, professor de Relações de Emprego e Trabalho da FGV-SP, os aumentos reais certamente virão. Porém, na maioria das categorias, o reajuste deve ficar entre 0,5% e 1%, estima Amad . “A inflação vai dificultar um aumento real muito expressivo, porque as empresas já vão ter que gastar bastante só para cobrir as perdas causadas pela alta do custo de vida”, acrescenta o docente. “Além disso, os empresários vão querer recuperar as perdas que tiveram no ano passado com a crise.”

Mesmo adotando uma postura conservadora, Amad reconhece que os trabalhadores ganharam poder de barganha neste ano que promete ser de vacas gordas. “Funcionários da construção civil, turismo, hotelaria e tecnologia da informação (TI), por exemplo, estão numa situação muito confortável agora, porque as empresas não encontram gente no mercado e precisam fazer de tudo para reter seus bons profissionais”, diz. “Por isso, para quem está nesta situação, a hora de pedir aumento é agora.”

Embora o cenário econômico esteja jogando a favor do trabalhador, ele sozinho não basta para convencer o chefe a colocar a mão no bolso. “O profissional que for pedir aumento também precisa levar argumentos, mostrando que é merecedor de um salário melhor”, afirma Fernando da Costa, diretor da consultoria de recursos humanos Human Brasil.

“Nem o bom momento da economia, nem o fato de as vendas da companhia estarem em alta e nem a escassez de mão de obra vão convencer o chefe a conceder um aumento se o funcionário não apresentar resultados para empresa”, reforça Costa. “Não adianta ser dedicado, varar a noite trabalhando e se mostrar comprometido. No final das contas, o que vai pesar a favor do trabalhador é o quanto ele contribui de fato para o sucesso da empresa.”  Carolina Dall’olio, Luciele Velluto

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