A Força Da Comunicação Corporativa

Demissão em massa de funcionários, nova contratação do gestor para um determinado departamento, decisão de fusão com outra empresa, transferência da sede ou de filiais. Esses e muitos outros assuntos podem servir de pauta para a tão potente rádio peão, canal de comunicação não oficial, bastante utilizada por grande parte dos funcionários nas organizações. Os burburinhos dos trabalhadores e as conversas de corredor ocasionam qualquer tipo de notícia falsa, que chega a circular rapidamente por toda companhia. E isso ocorre quando, geralmente, a gestão de comunicação interna precisa aprimorar sua estratégia e suas ações para ser eficiente e eficaz na veiculação de mensagens corporativas.
Muitas vezes apontada como fonte de custos e não de investimento, a comunicação interna, se bem estruturada e posta em prática, pode sim minimizar os efeitos da rádio peão. Ela deve ser utilizada como parceira estratégica nas ações de Recursos Humanos. Os desafios parecem muitos, mas não são impossíveis de serem superados. Pensar em novas formas de interação com os funcionários ou utilizar os canais já existentes na organização de maneira criativa, pode ser uma alternativa para evitar os prejuízos causados pela rádio peão.
De acordo com o jornalista, consultor e especialista em Comunicação Empresarial Luiz Antônio Gaulia, a manutenção da atividade da rádio corredor pode influenciar negativamente a produtividade e o desempenho individual e das equipes. “Organizações que acreditam que o silêncio é a melhor estratégia, quando o assunto é comunicação interna, correm o risco de ter uma rádio corredor gerando informações distorcidas, boatos e fofocas”, adverte.
Em entrevista ao RH.com.br, Gaulia – que foi gerente de comunicação da Cia. Siderúrgica Nacional (CSN), gerente de relações comunitárias da Alunorte e atuou também no O Boticário e no Grupo Votorantim – explica que a rádio peão é incontrolável. Para ele, o que se pode fazer é influenciar positivamente de modo permanente o ambiente de trabalho. “Quanto mais a comunicação interna oficial trouxer em primeira mão as notícias e os fatos, antes que os empregados descubram do lado de fora o que acontece dentro da empresa, melhor”, destaca. Confira a entrevista e reflita acerca da comunicação praticada em sua organização. Boa leitura!
RH.COM.BR – Por que a rádio peão ganhou força nas empresas e que fatores colaboram para a sua sobrevivência?
Luiz Antônio Gaulia – A rádio peão ou rádio corredor é uma “conversa de bastidores” dentro da organização. Esse tipo de conversa sempre ganha força quando as pessoas não têm acesso ou possibilidade de uma comunicação interna fluida, transparente e madura. Organizações que acreditam que o silêncio é a melhor estratégia, quando o assunto é comunicação interna, correm o risco de ter uma rádio corredor gerando informações distorcidas, boatos e fofocas. O que pode esvaziar a credibilidade da comunicação oficial quando ela acontecer.
RH – Que impactos a presença da rádio peão ocasiona ao meio corporativo?
Luiz Antônio Gaulia – Como eu disse, essa rede de informações que correm pelos bastidores têm impacto na qualidade das relações, atingindo a confiança dos empregados diante das lideranças, conspirando para criar um ambiente de trabalho neurótico, de alta ansiedade e receios. O que vai influenciar negativamente a produtividade e o desempenho individual e das equipes.
RH – Qual o caso mais grave que o Sr. já conheceu em que uma rádio peão causou problemas sérios a uma empresa?
Luiz Antônio Gaulia – Cito dois casos: um ocorrido durante uma negociação com um sindicato, na época do acordo coletivo. A liderança resolveu manter uma postura silenciosa diante das informações divulgadas pelo sindicato e isso quase causou uma greve. Ao utilizarmos a comunicação interna de maneira transparente e estratégica, lembro que conseguimos reverter o processo – quando cheguei a ir panfletar com minha equipe na porta da empresa, de um lado da calçada, enquanto o sindicato panfletava do outro. Numa outra organização, a rádio peão noticiava pelos corredores uma possível
fraude contábil. Mas a liderança nada dizia a respeito. O silêncio só foi esclarecido oficialmente quando a Polícia Federal entrou no escritório, armada. Foi um susto geral com a imprensa noticiando detalhes que a empresa ocultava de seus próprios empregados. Foi a época em que a organização mais perdeu talentos, com muita gente boa pedindo demissão. A partir daí, montou-se um sistema de comunicação interna permanente – mas foi preciso uma crise desta gravidade para a mudança cultural acontecer.
RH – Como as lideranças devem lidar com a rádio peão no dia-a-dia?
Luiz Antônio Gaulia – Rádio peão morre no momento em que se estimula o diálogo, a conversa produtiva, no momento em que se possui maturidade e inteligência para criar e manter uma comunicação interna atuante, organizada, planejada e com visão sistêmica. Hoje o que faz a diferença são as relações sociais, o diálogo face a face principalmente. Diálogo transparente, franco, olho no olho gera compromisso, engajamento, pois cria um valor escasso hoje em dia: a confiança.
RH – A rádio peão pode prejudicar a carreira dos colaboradores que dela participam?
Luiz Antônio Gaulia – Bom, fofoqueiros de plantão não são bons profissionais, isso é óbvio. Mas isso é humano e tudo que é humano deve ser levado em conta pelas organizações e suas áreas de RH, principalmente porque são as guardiãs do “clima de trabalho”. As emoções, os sentimentos e os afetos, por exemplo, ainda são questões difíceis de serem percebidas e cuidadas dentro das empresas – sejam públicas ou privadas. E ser humano é razão, mas também emoção.
RH – Muitos profissionais sentem-se seduzidos pela rádio peão. A alternativa para esses casos seria evitar dar espaço a informações que não partem da direção da empresa?
Luiz Antônio Gaulia – A rádio peão, na verdade, é incontrolável. O que se pode fazer é influenciar positivamente o ambiente de trabalho – de modo permanente. Quanto mais a comunicação interna oficial trouxer em primeira mão as notícias e os fatos, antes que os empregados descubram do lado de fora o que acontece dentro da empresa, melhor. E vamos lembrar que as redes digitais não dormem, estão noite e dia produzindo notícias e criando versões sobre os fatos. Ou seja, já existe a “rádio peão on-line” nas comunidades digitais de relacionamento e que podem causar estragos ao valor das empresas, atingindo diretamente as bolsas de valores.
RH – De que forma a área de Recursos Humanos pode atuar no combate à rádio peão?
Luiz Antônio Gaulia – Acredito que a área de Recursos Humanos é a área mais importante neste sentido. Aliás, ela já poderia ter outro nome, como área de Relações Internas. Uma definição mais ampla, pois as pessoas são muito mais do que simples recursos. Ao perceber essa dimensão, maior, é inevitável que a comunicação interna ganhe força na construção de um ambiente favorável ao diálogo. Lembrando que diálogo é mão dupla. E que “dois monólogos não fazem um diálogo”, ok?
RH – Que tipo de ações as empresas devem adotar para evitar o conflito de informações no ambiente organizacional?
Luiz Antônio Gaulia – As ações vão depender de um item muito importante na costura de um sistema de comunicação interna eficiente. A capacidade de escutar as pessoas, porque esta é uma premissa essencial do diálogo. E também da capacitação dos gestores na comunicação face a face – porque gestão de pessoas passa por comunicação, inevitavelmente. Máquinas não falam nem sentem, mas pessoas não são máquinas, é bom sempre relembrar.
RH – Em sua opinião, a rádio peão pode se tornar uma ferramenta aliada à organização?
Luiz Antônio Gaulia – Sim, a rádio peão pode ter seu lado negativo substituído quando a organização inteira já está banhada por uma comunicação interna fluida como a água. As fofocas negativas dão lugar a conversas produtivas e entusiasmadas, de puro engajamento, vontade de fazer acontecer, construir. Isso depende da liderança. É possível, mas leva tempo – não é da noite para o dia. E, importante: a comunicação só vai resolver se a gestão acompanhar. Problemas estruturais não dependem de comunicação dependem de decisões administrativas, ações concretas.
RH – Que canais de comunicação interna podem enfraquecer a rádio peão?
Luiz Antônio Gaulia – O canal depende do negócio, da empresa, do jeito de ser. Qualquer canal pode enfraquecer a rádio peão desde que tenha credibilidade, desde que tenha uma atuação permanente, traga conteúdos relevantes e uma linguagem acessível e clara para os diferentes segmentos do público interno. Tratar empregados adultos como crianças não é fazer uma comunicação interna adequada.
RH – Que conselhos o Sr. daria aos simpatizantes da rádio peão?
Luiz Antônio Gaulia – A conversa deve ser a base para o trabalho – mas uma conversa que busque o esclarecimento, busque a solução de problemas, a criação de novos caminhos. Aconselho aos simpatizantes da rádio corredor fazerem terapia, pois ninguém consegue viver muito tempo estimulando um ambiente de fofocas, falando mal dos outros, sendo hipócrita ou sarcástico. Trabalhamos mais de oito horas por dia dentro das empresas e assim este deve ser um lugar sadio. E a saúde começa quando podemos dialogar e perceber mais pontos em comum com o outro do que diferenças, mais oportunidades na diversidade de opiniões, onde juntos possamos ver o outro ser humano como uma promessa e não como uma ameaça.               Élida Bezerra

 

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