A Teoria de Funcionamento dos Grupos

A teoria dos grupos de Bion parte de uma distinção inicial. Existe o que o psicanalista inglês denominou de grupo de trabalho ou grupo refinado e os grupos de base , ou mentalidade grupal ou ainda grupos de pressupostos básicos.

 

Grupo de Trabalho

Por grupo de trabalho entende-se a reunião de pessoas para a realização de uma tarefa específica, onde se consegue manter um nível refinado de comportamento distinguido pela cooperação. Cada um dos membros contribui com o grupo de acordo com suas capacidades individuais, e neste caso, consegue-se um bom espírito de grupo. Por espírito de grupo, Bion (1975, p. 18) entende que se trata de:

– A existência de um propósito comum;

– Reconhecimento comum dos limites de cada membro, sua posição e sua função em relação às unidades e grupos maiores;

– Distinção entre os subgrupos internos;

– Valorização dos membros individuais por suas contribuições ao grupo;

– Liberdade de locomoção dos membros individuais dentro do grupo;

– Capacidade do grupo enfrentar descontentamentos dentro de si e de ter meios de lidar com ele;

Um grupo se encontra em trabalho terapêutico quando ele adquire conhecimentos e experiências sobre os fatores que contribuem para o desenvolvimento de um bom espírito de grupo.

Na visão deste autor, o grupo é “essencial para a realização da vida mental de um homem – tão essencial para isto quanto para a economia e a guerra” (p. 46).

Entretanto, os grupos que ele foi observando na sua experiência clínica não se comportavam desta forma. Eles pareciam mobilizados por forças estranhas, que levavam seus participantes a agirem de forma diversa à que era esperada deles na busca da realização dos objetivos em torno dos quais eles próprios concordaram em reunir-se. Este fenômeno levou-o a observar atentamente aquilo que ele denominou inicialmente como mentalidade de grupos.

 

Mentalidade de Grupos

A mentalidade de grupos é “a expressão unânime da vontade do grupo, à qual o indivíduo contribui por maneiras das quais ele não se dá conta, influenciando-o desagradavelmente sempre que ele pensa ou se comporta de um modo que varie de acordo com os pressupostos básicos” (Bion, 1975, p. 57). Ela funcionaria de forma semelhante ao inconsciente para o indivíduo.

Ela seria responsável pelo “fracasso dos grupos” que Bion reputa à “expressão num grupo de impulsos que os indivíduos desejam satisfazer anonimamente e a frustração produzida no indivíduo pelas conseqüências que para si mesmo decorrem desta satisfação” (p. 46).

Em suas observações ele destaca diversas situações onde o grupo parece estar mobilizado pela mentalidade de grupo. Conversas fúteis, ausência de juízo crítico, situações “sobrecarregadas de emoções” a exercerem influências sobre o indivíduo, estímulo às emoções independentemente do julgamento, em suma: “perturbações do comportamento racional do grupo” (p. 31).

Desta forma, os grupos seriam como uma moeda, que possui duas faces, uma voltada à consecução dos seus objetivos e uma outra regida por impulsos dos seus membros, impulsos estes que se manifestariam quando se está reunido em um grupo de pessoas.

Um dos termos que Bion utiliza para definir a mentalidade dos grupos é “padrão de comportamento”. Humbert (1985) afirma que o termo “pattern of behavior “3 foi desenvolvido pelos biólogos e que havia sido incorporado por Jung para a definição dos arquétipos. Este conceito articula a idéia de herança genética às contribuições dadas pela cultura, diferentemente do conceito de instinto, muito empregado por psicólogos do século XIX. Este conceito assemelha-se também à idéia de estrutura.

Ao prosseguir seus estudos, Bion foi distinguindo três padrões distintos, mas intercambiáveis, que seriam uma constante na mentalidade de grupos. Ele os denominou pressupostos básicos ( basic assumptions).4

A teoria dos pressupostos básicos possui suas raízes na teoria freudiana, que tenta explicar os fenômenos grupais a partir da libido (instinto sexual). No seu famoso estudo intitulado “A Psicologia de Grupo e Análise do Ego” ele abandona a proposta de Trotter, que formulara a existência de um instinto gregário primário e inato para explicar os fenômenos de grupo, para sustentar a hipótese psicanalítica de que os fenômenos grupais possuem como origem um investimento afetivo sobre um objeto que não pode ser obtido, seguido pela identificação com os supostos “rivais”. O pai da psicanálise ilustra seu ponto de vista com o nascimento de um segundo filho na família (que gera inveja no primeiro, e que é punida pelos pais, gerando uma identificação e um sentimento de comunidade, como forma possível de conviver com esta ambivalência), a identificação entre as fãs de um cantor ou pessoa de destaque e a competição pelo favoritismo entre as crianças na escola, seguida de uma ênfase e exigência de igual tratamento. Para Freud, o que “posteriormente aparece na sociedade sob a forma de Gemeingeist, esprit de corps, espírito de grupo’ etc., não desmente a sua derivação do que foi originalmente inveja” (Freud, 1921/1969b). Há portanto, na origem do sentimento social, segundo a psicanálise freudiana, a “influência de um vínculo afetuoso comum com uma pessoa fora do grupo”. Ele é uma “formação reativa contra atitudes hostis de rivalidade”.

No pós-escrito deste artigo, Freud afirma que os impulsos diretamente sexuais são desfavoráveis à formação de grupos, e ilustra sua posição com a busca de privacidade do casal, a sua auto-suficiência enquanto enamorados e os sentimentos de ciúme.

Em outro trabalho conhecido, “O mal-estar na civilização”, Freud (1930/1969a) trata dos instintos agressivos, argumentando pela existência de situações onde eles se manifestam de forma associada aos instintos eróticos. Os casos de sadismo e masoquismo são ilustrativos.

Os trabalhos de Bion, entretanto, possuem um enfoque e interesses diferentes aos do pai da psicanálise, como se pode ver no próximo bloco.

 

Pressupostos Básicos

À medida que vai observando os grupos, Bion identifica três tipos de “padrões de comportamento” próprios dos fenômenos de mentalidade de grupo. Ele denominou-os como dependência, acasalamento e luta-fuga. Bléandonu (1993, p. 52) destaca a semelhança entre estes três tipos e a teoria de um dos mestres de Bion, o médico e psicólogo Hadfield.

Hadfield diferenciava uma tríade de pulsões, a saber: a libido-sexual, a agressão ou afirmação de si mesmo, e a dependência. (notar-se-á, de passagem, a semelhança com os três pressupostos básicos propostos por Bion).

Um dos primeiros fenômenos observados por Bion (1975) foi a demanda que seus grupos apresentavam por um líder, capaz de satisfazer aos seus membros.”O grupo é bastante incapaz de enfrentar as emoções dentro dele, sem acreditar que possui alguma espécie de Deus que é inteiramente responsável por tudo o que acontece” (p. 30).

Este pressuposto básico é o de que “existe um objeto externo cuja função é fornecer segurança para o organismo imaturo”. Este objeto pode ser uma pessoa, uma idéia ou a história do grupo.

O líder que age segundo este pressuposto básico se comporta como se fosse “onipotente” ou “onisciente”, características próprias de uma divindade. Qualquer pessoa que queira ocupar o lugar de líder, uma vez já ocupado (ou pelo menos atribuído pelos membros do grupo), pode ser rechaçada, desdenhada ou menosprezada. Quando o suposto líder recusa-se a agir segundo o papel que se espera dele, cria-se um mal estar no grupo, que pode recorrer a explicações fantasiosas para manter-se coeso.

Os membros do grupo, agindo segundo este padrão de comportamento, disputam a atenção do líder e podem sentir “culpa pela voracidade” com que o fazem. Eles freqüentemente consideram suas experiências insatisfatórias e insuficientes para lidar com a realidade, desconfiam da sua capacidade em aprender pela experiência. Seus sentimentos mais freqüentes são os de inadaptação (à vida, às suas experiências etc., e não apenas ao grupo) e de frustração.

Bion (1975) acredita que as pessoas aceitam estar em um grupo de dependência para “evitar experiências emocionais peculiares aos grupos de acasalamento e de luta-fuga” (p. 72).

O segundo pressuposto básico identificado por Bion é que “está por vir um novo grupo melhorado” ou que o grupo futuramente atenderá às necessidades pessoais de seus membros e o autor às vezes se refere a este pressuposto como “esperança messiânica”, mas o denominou como “acasalamento” em uma clara acepção à origem psicanalítica do termo.

O grupo de acasalamento foi inicialmente observado em pares que conversavam assuntos diversos, à parte, sem que o grupo se incomodasse com eles ou chamasse a sua atenção, aceitando-os. Eles pareciam-se com casais de namorados, embora não tratassem de nenhum assunto de conteúdo explicitamente sexual.

O líder do grupo, neste pressuposto básico, está por nascer, e pode ser uma “pessoa ou idéia” que salvará o grupo. Bion entende que esta “salvação” é, na verdade, dos sentimentos de ódio, destrutividade e desespero com relação ao seu próprio grupo ou a outro (daí a referência ao messias).

Os membros de um grupo que está agindo sob a influência deste pressuposto básico, de forma geral, não estabelecem conversas com o “líder formal” ou chefe do grupo.

A emoção mais presente no grupo de acasalamento é a esperança, e a atenção de seus membros, acha-se voltada ao tempo futuro.

O terceiro pressuposto básico é o de luta-fuga e pode ser exposto da seguinte forma: “estamos reunidos para lutar com alguma coisa ou dela fugir”.

Os membros do grupo discutem sobre pessoas ausentes (que são um perigo para a coerência do grupo), estão tomados pela sensação de que a adesão do grupo é um fim em si mesmo. Eles ignoram outras atividades, que não sejam este debate infrutífero, fogem delas. Eles acreditam, ou agem como se acreditassem, que o bem estar individual é menos importante que a continuidade do grupo.

O líder reconhecido como tal por este grupo é o que concede oportunidades para a fuga (que é a mesma coisa que a luta das discussões infrutíferas em torno da conservação do grupo). É ignorado quando não atua desta forma.

 

Pressupostos Básicos e Grandes Organizações

O psiquiatra inglês procura aplicar os conhecimentos obtidos no estudo de pequenos grupos na análise do funcionamento de grandes grupos.

Assim como Freud, ele se atém à igreja, afirmando que se trata de um grupo especializado de trabalho sujeita à interferência de fenômenos de grupo de dependência. O segundo qual estaria sujeito a fenômenos de grupo de luta-fuga.

Ele considera a aristocracia como um grande grupo mobilizado por fenômenos de acasalamento.

Conclui-se, portanto, que neste momento de sua obra ele considera válida a aplicação dos conceitos relacionados à dinâmica dos grupos de base às grandes organizações, não estando muito atento aos problemas que se criam ao se retirar conceitos do seu território de origem.

Jáder dos Reis Sampaio – Universidade Federal de Minas Gerais

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