A Vida Sem Patrão

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A maioria das pessoas no Brasil já trabalha sem carteira assinada e isso não é sinal de empobrecimento. Muita gente está tentando ganhar a vida por conta própria.

A lista de sonhos da classe média sofreu uma alteração significativa. Uma das metas favoritas dessa fatia da sociedade sempre foi conseguir um bom emprego numa firma renomada ou numa estatal. Hoje em dia, empregar-se com carteira assinada ainda fascina as pessoas, mas não com igual intensidade. Muita gente descobriu o caminho paralelo de trabalhar por conta própria, vivendo sem patrão. Alguns aprendem isso porque sentiram a oportunidade no ar. Outros só perceberam a possibilidade ao ser despedidos num mercado de trabalho com tendência a encolher. Fato é que, de acordo com os estudos mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), quase metade da população urbana do país já trabalha sem assinar carteira ou receber ordenado. Segundo especialistas, pela primeira vez, há mais gente ganhando a vida sem carteira de trabalho do que com ela. “É uma das maiores mudanças já ocorridas na estrutura e na dinâmica da economia brasileira”, afirma o ex-ministro da Fazenda Mailson da Nóbrega, sócio da consultoria econômica Tendências.

Em 1992, registrava-se um empate técnico entre o time dos que trabalhavam empregados, com carteira e tudo, e o dos que atuavam por conta própria. Cada um deles contava com cerca de 18 milhões de pessoas. A massa de empregados permaneceu praticamente inalterada até hoje. Mas o exército dos “sem-carteira” cresceu muito e ultrapassou a casa de 23 milhões de pessoas. Como a carteira é uma conquista da era Vargas que indiscutivelmente garantiu direitos básicos ao empregado, trabalhar sem ela era o mesmo que estar subempregado. Afinal, quem vivia sem registro? Entre os milhões nessa situação, costuma-se citar os camelôs, os vendedores de bugigangas em semáforos, as domésticas. Também entram na lista aqueles que fazem bico enquanto aguardam uma oportunidade de emprego. São sempre lembrados ainda os que, mesmo trabalhando numa firma qualquer, ficam sem registro por ganância do patrão, que não quer arcar com custos trabalhistas.

Essa fatia mais humilde da sociedade continua na mesma situação de penúria e gostaria muito de arranjar um bom e seguro emprego regular. A grande novidade no campo do trabalho sem carteira é o ingresso nesse clube de uma fatia expressiva formada por uma mão-de-obra qualificada. São administradores, publicitários, bancários e engenheiros, entre outros profissionais que pagam os impostos em dia (pelo menos a maioria deles, segundo a Receita Federal) e não querem ouvir falar em patrão. Essa gente se divide em três blocos centrais: há os terceirizados, que permanecem vinculados à empresa onde trabalhavam antes, só que na condição de prestadores de serviço; há os consultores, que atuam em diversas companhias; e há os empresários, que montaram um negócio qualquer. Comércio e prestação de serviço são as áreas mais procuradas, com cerca de 35% da preferência. Estima-se que essa fatia mais qualificada entre os 23 milhões de sem-carteira concentre nada menos que 12 milhões de pessoas.

Sinais desse Brasil empreendedor podem ser conferidos em toda parte. Um dado objetivo é uma consulta ao Departamento Nacional de Registro do Comércio. De 1985 a 1989, cinco últimos anos da década de 80, foram abertas, em média, 420 000 empresas por ano. Entre 1995 e 1999, essa média saltou para 496 000, um aumento de 18%. São mais de 1 300 negócios surgindo diariamente – quase um por minuto. Há estudos mostrando que a maior parte dos novos empresários era composta de funcionários de uma empresa privada. Em São Paulo, esse número chegou a 59%. Outra indicação do fenômeno empreendedor é um trabalho recente elaborado pelo Babson College e pela London

Business School. Os especialistas criaram um ranking com os povos mais empreendedores do planeta. Foram avaliados dados de 21 países. O Brasil ficou em primeiro lugar na lista. Um em cada oito brasileiros adultos monta um negócio próprio. Nos Estados Unidos, segundo colocado, a proporção é de um para dez. Um dos motivos que contribuem para o alto índice de empreendedores no Brasil é a legislação trabalhista rígida, que impede contratações flexíveis. Isso joga muitos candidatos a emprego na faixa dos que precisam se virar sozinhos. Nos Estados Unidos ou na Austrália, um dono de restaurante pode contratar garçons que trabalham apenas nos fins de semana para engrossar o plantel fixo da casa. Uma mulher que precise cuidar de uma pessoa inválida e dos quatro filhos ao mesmo tempo pode ser contratada como secretária de uma firma para trabalhar apenas duas horas por dia, dia sim, dia não. Não importa a combinação, tudo é possível. No Brasil, não. O único modelo aceito é o das oito horas diárias, com um mês de férias, 13° salário, indenização por demissão e todo o resto. Em todo país com legislação trabalhista rígida há mais desemprego.

No Brasil, algumas pessoas abrem uma empresa para melhorar a qualidade de vida. Um modelo imaginado por muitos é o casal Mathias de Abreu Lima Filho, 48 anos, e Eliana Chiocheti, 39. Ambos tinham bons cargos na Rhodia, em São Paulo. Ele era gerente do departamento de pesquisa, ela coordenadora de recursos humanos de uma das unidades da empresa. Depois de dez anos de carreira, os dois se desligaram da empresa e, no ano passado, inauguraram uma charmosa pousada em Monte Verde, no interior de Minas Gerais. Com o rendimento da pousada, sustentam quatro filhos, três deles estudando em escolas particulares. Têm casa própria, pagam plano de saúde e levam uma vida de bom padrão. “Nosso rendimento é ainda um pouco menor comparado ao da época em que éramos empregados da Rhodia”, afirma Lima Filho. “A diferença acaba sendo compensada pelo prazer de tocar um projeto pessoal”, completa ele.

Mas o projeto de Mathias e Eliana não é a regra. Os “novos empresários” são puxados para a vida sem patrão por motivos menos românticos. Alguns dos mais fortes: demissão por iniciativa da empresa, desejo de livrar-se do chefe, esperança de encerrar uma rotina de trabalho que começa às 9 da manhã e acaba às 7 da noite e, por fim, a aspiração de melhorar o padrão de vida da família. Quando troca de lado, muita gente sente saudade da rede de proteção representada pela firma. Em vez disso, agora é preciso lidar com fornecedores, sócios, contadores, cobradores, clientes, advogados. Mais: o novo patrão precisa achar as respostas sozinho. E quanto à jornada das 9 às 7? Calcula-se que o neo-empresário trabalhe entre doze e quinze horas diárias. Afinal, ele ganha por serviço realizado. “Trabalho duas vezes mais do que na época em que era empregada”, conta a arquiteta Miriam Addor, 35 anos. Depois de fazer parte durante seis anos do quadro de funcionários de uma construtora, ela montou em 1995 seu próprio escritório de engenharia, em sociedade com o marido, um engenheiro. Hoje, felizmente, não faltam obras à empresa, que emprega trinta profissionais.

Quanto a melhorar a renda familiar, há casos extraordinários como o do próprio casal Addor, que trabalha o dobro mas ganha o triplo do que ganhava antes. A regra geral não é tão generosa. A prática mostra que a maioria das pessoas passa a ganhar menos e, além disso, começa a arcar com despesas que inexistiam na fase empregada, como plano de saúde e previdência privada. Para tornar a vida do empresário ainda mais complicada, sua remuneração é inconstante. Segundo estudo realizado pelo pesquisador Marcelo Neri, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), a renda do empreendedor pode variar entre 25% e 50% de um mês para o outro.

O maior motor do empreendimento pessoal não é um movimento de atração, mas de expulsão. É isso mesmo. A maior parte das pessoas não foge do atual patrão. Apenas acaba sendo demitida por ele. Um estudo recente do Centro de Políticas Sociais da FGV apontou as razões  que  levaram  cerca  de

10 milhões de brasileiros a abrir um negócio próprio. Cerca de 2 milhões montaram a firma depois de abandonar voluntariamente o emprego que possuíam. Algo como 2,5 milhões de pessoas, no entanto, viraram microempresárias por não encontrar um novo emprego. Nas últimas décadas, empregar-se numa grande companhia tornou-se cada vez mais difícil. Ao contrário do que ocorria no passado, as companhias crescem mas não aumenta na mesma proporção o número de postos de trabalho. Em 1980, a Volkswagen produziu 470 000 veículos com 46 000 pessoas na sua folha salarial. Hoje, fabrica 20 000 carros a mais com metade da mão-de-obra de 1980. Os especialistas, acostumados a debater sobre os empregos do futuro, hoje especulam qual será o futuro do emprego.

Como escreveu o economista americano Jeremy Rifkin em seu livro O Fim dos Empregos, “trabalhadores presos entre um passado próspero e um futuro sombrio sentem-se encurralados, pois testemunham um processo sobre o qual não têm nenhum controle”. Rifkin lembra que até algum tempo atrás a tecnologia ceifava empregos, mas o problema acabava sendo contornado com o surgimento de um outro setor que absorvia os trabalhadores demitidos. Agora não. Estima-se que a reengenharia empregada mundo afora resulte num corte de 40% dos postos existentes. Detalhe: a reengenharia começou como um modelo exclusivo da megacorporação e hoje é utilizada até mesmo nos negócios de pequeno porte. Para tornar o quadro ainda mais sombrio, basta dizer que há mais de 800 milhões de pessoas desempregadas ou subempregadas no mundo, o mais alto desemprego global desde a depressão de 1930. De acordo com a Federação Internacional dos Metalúrgicos, em Genebra, até 2020 menos de 2% dos metalúrgicos atualmente empregados conseguirão fabricar todos os bens de consumo que hoje exigem o trabalho desse tipo de profissional. A sociedade está tão habituada com a existência do emprego em massa que parece até incrível verificar que está chegando ao fim a era das grandes linhas de montagem cujo funcionamento depende de braços humanos.

Outros países já registraram um movimento de transformação do mercado profissional semelhante ao que ocorre agora no Brasil. Na década de 70, aconteceu algo parecido nos Estados Unidos. Estima-se que, hoje, os trabalhadores americanos sem registro já cheguem à casa dos 25 milhões, incluindo microempresários, consultores e prestadores de serviço, entre outros, que representam cerca de 20% da força produtiva nos Estados Unidos. Existe uma tendência mundial que explica a repetição desse fenômeno em vários países. É o enxugamento das empresas e dos quadros administrativos oficiais. No Brasil, os cortes no quadro de funcionários de estatais privatizadas ou de empresas incorporadas por grupos estrangeiros geraram uma onda dos chamados “Planos de Demissão Voluntária” (PDV). Para espanto geral, boa parte desses planos contou com adesão acima da esperada. Ou seja, as pessoas muitas vezes preferem ser demitidas. Quando o banco Excel adquiriu em 1996 o Econômico, os novos administradores esperavam reduzir 3.000 vagas. Cerca de 20% a mais de funcionários se desligaram voluntariamente. No programa realizado após a privatização do Banespa, 8.203 trabalhadores se inscreveram no PDV – bem mais que o previsto. Uma das empresas que realizaram recentemente um projeto desse tipo, a Rede Ferroviária Federal, pesquisou o que os ex-funcionários fizeram com a indenização. Descobriu que nada menos que 75% deles usaram o dinheiro para abrir um comércio. “O brasileiro não possui apenas espírito empreendedor, mas rebelde”, afirma Marcelo Neri. “Ele não gosta de ficar apertando parafuso.”

Os negócios mais bem-sucedidos foram montados por quem investiu na coleta de informações sobre os riscos envolvidos na operação. Há diversas entidades dispostas a fornecer orientação, entre elas o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas, Sebrae (www.sebrae.com.br). Com a ajuda da internet, podem-se garimpar dados não apenas no Brasil, mas em outras partes do mundo. Outra constatação é que acerta mais quem tem a idéia e vai buscar o dinheiro para financiá-la do que aquele que tem o dinheiro e então fica pensando no que fazer. A não ser em casos excepcionais, há

uma verdade absoluta nesse setor: sobrevive quem se prepara com cuidado e inicia o empreendimento com alguma folga de caixa.

O Brasil registra um dos maiores índices do mundo de mortalidade de empresas. Cerca de 50% dos negócios criados no país fecham suas portas antes de completar um ano de vida. “As pessoas têm muita vontade de viver sem patrão, mas cometem erros primários na hora em que são obrigadas a tomar decisões empresariais”, afirma Vinicius Lummertz, diretor técnico do Sebrae Nacional. De acordo com levantamento feito pela instituição em Minas Gerais, fatores externos, como a concorrência e a excessiva tributação, são responsáveis por apenas 27% dos casos de falência. As demais causas são a escassez de capital de giro, a falta de clientes e erros na montagem do negócio. A professora mineira Mirna Chipiakoff, 42 anos, fez uma tentativa frustrada de abrir um negócio próprio. Ela pediu demissão do banco em que trabalhou por seis anos e investiu os 18.000 reais da rescisão em um café localizado em um dos bairros mais elegantes de Belo Horizonte. Como o movimento não foi o esperado, Mirna não conseguiu sustentar o negócio por muito tempo. “Fui obrigada a fechar as portas antes que o prejuízo fosse maior”, lembra.

Os empreendedores que escapam dessa incrível taxa de mortalidade têm muito a ensinar a quem deseja seguir igual caminho. A mesma pesquisa do Sebrae mineiro mostra que a maioria atribui o sucesso a uma boa administração, a um bom conhecimento do setor e à perseverança do dono. Calcula-se que os empreendedores de sucesso tomaram um cuidado adicional: na hora de fazer o investimento inicial, mantiveram intacto algo como 70% de suas economias. Parte desse dinheiro foi usada para o capital de giro. O restante destinava-se a suprir as despesas pessoais enquanto o comércio não dava o retorno desejado. Outro erro considerado gravíssimo é trocar de lado do balcão mas continuar com a visão de empregado. Ou seja, esquecer-se de reservar tempo para buscar novos clientes, traçar estratégias, projetos especiais, metas para a empresa a médio e longo prazo. Para garantir a sobrevivência do próprio negócio, uma franquia da perfumaria O Boticário, a pernambucana Roberta Araújo de Albuquerque chegou a acumular duas funções: trabalhava em meio expediente como caixa num banco e, no restante do dia, cuidava de sua loja. Em 1997, quando o negócio já caminhava bem, ela deixou o emprego e usou o fundo de garantia para comprar outra franquia da mesma marca. “Tenho hoje um carro e um apartamento, patrimônio que não conseguiria acumular nunca trabalhando como bancária”, conta ela.

O Brasil tem um dos empregos mais caros do mundo. Não porque o salário seja alto, mas porque a criação de um posto de trabalho é altamente tributada e, como contrapartida, o Estado oferece serviço de baixa qualidade a quem paga os impostos. Do ponto de vista de quem contrata, manter um empregado significa dar ao governo algo como 1 real para cada real de salário. Sai mais barato despedir o funcionário, recontratá-lo como “empresa” e ainda aumentar seus vencimentos em 20% ou 30%. Do ponto de vista do assalariado, a operação também é vantajosa. Um empregado de bom salário paga 27,5% de seus ganhos a título de imposto de renda. Na condição de “empresário”, pode reduzir a carga para menos da metade. Como o Brasil é uma terra de contrastes, trabalhar por conta própria é bom para alguns e péssimo para outros. Segundo dados da FGV, boa parte das famílias pobres do Brasil permanece sendo sustentada por pessoas que trabalham sem vínculo empregatício. É uma realidade duplamente perversa. Primeiro, porque quem as contrata está sonegando impostos. Depois, porque, no futuro, o Estado vai ter de arcar com os custos de saúde, assistência social e aposentadoria de uma massa de idosos que jamais contribuíram com a Previdência Social por culpa exclusivamente do patrão.

Para a população de baixa renda, bom é ter carteira assinada, sim. Tome-se como exemplo o caso do pedreiro baiano Bernardino Castro de Brito, 35 anos. Quando chegou a São Paulo, no começo da década de 90, ele trabalhou dois anos sem registro em carteira. “Meus amigos diziam que, dessa maneira, eu conseguiria receber mais dinheiro”, conta ele, que nessa época chegava a embolsar cerca de 800 reais por mês. Sentindo-se inseguro demais com a situação, Bernardino resolveu mudar de idéia. Há alguns anos, aceitou um emprego numa empresa de construção civil, com salário mensal menor – 460 reais. Mas, fazendo as contas na ponta do lápis, saiu no lucro. Considerando-se as horas extras, o 13º salário e outros benefícios que recebe, como plano de saúde e vale-transporte, o pedreiro possui hoje uma renda anual maior. E, graças ao contracheque, tem outros benefícios indiretos. “Posso abrir conta em banco e fazer financiamentos”, explica ele.

O crescimento no número de empreendedores já produziu duas mudanças no país. Uma delas diz respeito aos serviços de apoio aos empresários de primeira viagem. Uma antiga reclamação dos que trabalhavam “por conta” dizia respeito à dificuldade em comprovar renda para obtenção de financiamento habitacional e à impossibilidade de ingressar num plano de previdência privada. A Caixa Econômica Federal (CEF) já montou um produto para quem quer financiar a casa própria e não pode comprovar renda. A partir de um questionário preenchido pelo trabalhador, a CEF calcula a capacidade de pagamento do candidato. De acordo com os dados do banco, cerca de 20% dos financiamentos são feitos hoje dessa forma. Quanto aos planos de previdência, as seguradoras discutem neste momento uma forma de criar um produto especial.

Outra mudança expressiva é de caráter político e ideológico. Essa massa de novos empreendedores ganha como empregado, mas precisa pensar e agir como patrão, pois seus rendimentos sofrem alterações diárias devido às oscilações da economia brasileira. Os estudiosos já cunharam um termo para identificar esse grupo emergente: “nova classe média”. Quando a economia vai bem, eles são os primeiros a ganhar. Quando ela vai mal, os primeiros a perder. “Por causa dessa irregularidade nos ganhos e nas perspectivas de segurança, acabam tendo opiniões políticas mais conservadoras que a média dos assalariados e muito mais conservadoras do que tinham antes”, afirma o cientista político Sérgio Abranches.

Como existem vantagens e desvantagens na hora de montar um negócio próprio, os especialistas defendem que é preciso levar em conta a vocação antes de decidir por esse caminho. Uma pessoa com um tremendo domínio técnico de sua área pode ter resultados pífios quando decide deixar o emprego para vender seus serviços por conta própria. Em outros termos, não adianta ser um gênio da engenharia mas um péssimo administrador. A capacidade de empreender parece ser uma habilidade à parte, que independe do conhecimento técnico que a pessoa tenha. Alguns sustentam até mesmo que o talento para gerir um negócio é uma característica inata.

O Kauffman Center for Entrepreneurial Leadership, instituto americano especializado no assunto, divulgou recentemente um estudo defendendo a tese da virtude inata. Na pesquisa, o professor de psicologia Alan Jacobowitz entrevistou 500 empreendedores dos Estados Unidos em um período de três anos. Suas características comuns eram a inquietude, a independência, a preferência por trabalhar sozinho e a elevada autoconfiança. Na direção contrária a essa linha de pesquisa, percebe-se um aumento no número de cursos que oferecem aulas ensinando as pessoas a se tornarem empresárias. Para essa corrente, o talento empresarial é matéria que dá para aprender.

De acordo com o guru da administração Peter Drucker, perde tempo quem procura traçar um perfil-padrão do empresário. Ele disse certa vez, fazendo graça: “Alguns empresários são excêntricos,

outros são conformistas doentios. Alguns são gordos, outros são muito magros. Alguns são tensos, outros relaxados. Alguns bebem muito, outros são abstêmios. Alguns são homens extremamente charmosos e entusiasmados, outros possuem uma personalidade mais fria que a de um peixe congelado”. Tome-se como exemplo dessa diversidade de que trata Drucker uma preocupação corriqueira quando se discute o tema. Qual é a idade certa para iniciar um empreendimento? Ela simplesmente não existe. Bill Gates fundou a Microsoft com apenas 20 anos. Sam Walton deu origem ao império Wal-Mart aos 44. E Ray Kroc era um homem de 52 anos quando montou a maior cadeia de fast food do planeta, o McDonald’s. Perguntado certa vez se não tinha começado tarde demais, Kroc afirmou: “Eu estava com 52 anos. Tinha diabetes e um início de artrite. Havia perdido minha vesícula biliar, mas tinha certeza de que o melhor estava por vir”. Se você tem uma sensação parecida com a de Ray Kroc, pode ser que esteja na hora de tentar o salto. Ou não?

Lia Abbud, com reportagens de Joana Calmon, Ricardo Mendonça, Nahara Bauchwitz e Neide Oliveira     Fonte: Revista VEJA – 20 de junho, 2001

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