Adeus Às Ilusões

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Minha amiga e eu fomos para a praia no feriado. Ela com a família, marido e filhos e eu só (quase de vela). Eu ficaria mais três dias depois do feriado e ela teria que subir a serra no domingo. Como nós tínhamos pego muito trânsito na ida, ela estava obviamente preocupada com o trânsito da volta. O marido queria subir ainda no sábado à noite. E ela não. Tudo dependeria de como o domingo amanhecesse. Se com sol, as pessoas esperariam até o final da tarde para voltar para casa. Se com chuva, iriam embora mais cedo e ela poderia aproveitar mais um pouco.

Abri meu celular para ver a previsão do tempo. E lá acusava 89% de chance de chuva. Mostrei o celular para ela e para um rapaz que estava ajudando no churrasco e, mesmo mostrando os números ouvi: “Olha lá, tá vendo, não vai chover amanhã não”. Ela não queria que chovesse. E conseguiu ver errada a previsão do tempo que, obviamente, traria uma baita chuva. Conclusão: Domingo amanheceu chuvoso e eles subiram a serra com pouco trânsito, mais cedo e com muita chuva.

Isso é uma bobagem, claro. Só um pequeno e ínfimo exemplo de como o nosso cognitivo só acredita no que quer. Não, ela não fez por maldade e nem estava duvidando de mim ou do aplicativo do celular. Ela só estava interpretando segundo os seus desejos. Que o domingo fosse um lindo dia de sol e ela pudesse aproveitar mais um pouco. E claro, não teve consequência nenhuma. Foi só mais um dia de praia, sem praia, óbvio, mas igualmente divertido a seu jeito. O nome disso? Ilusão.

A minha terapeuta me mandou repetir um mantra: “Universo, pode mandar que eu só quero ver a verdade”. Quando estamos falando de um dia de sol ou chuva é fácil. O problema é todo o resto da sua vida. Quando aquele emprego está por um fio mas você olha e pensa: “Ah, imagina, é só uma crise da empresa”. Ou quando o seu casamento acabou faz tempo que você coloca a culpa na vizinha gostosa que se mudou para o apartamento ao lado. Tudo é só uma maneira de interpretar do nosso cérebro que é treinado para uma coisa simples: Não ver a verdade.

Quando estamos com o véu da ilusão sobre os nossos olhos nunca, jamais ouviremos os conselhos de quem quer que seja.

A única verdade é que tudo muda. E que precisamos estar o tempo todo antenados nas próximas mudanças, que poderão ser boas ou não. Eu particularmente acredito que todas as mudanças são boas, até quando não parecem a princípio. De fato, o plano espiritual tem uma visão muito diferente do que a nossa e, mesmo quando achamos que algo é uma desgraça, aprenderemos um dia que não foi assim tão grave. Isso, claro, se você acreditar que existe uma inteligência espiritual por trás de tudo. Que tudo está sempre certo a seu modo. E que somos pequenos demais para entender muitas e muitas coisas e realidades.

O problema é quando a ilusão nos cega. Quando não conseguimos pensar naquilo com clareza. É isso que acontece quando você aconselha aquela amiga que repete e repete que não consegue mudar algo que está na sua cara. Você fala 400 vezes, usa seus melhores argumentos e na próxima semana a mulher está lá com o ex passeando para cima e para baixo. E você pensa: “Isso não vai dar certo”, mas não adianta falar. Não, não adianta.

Quando estamos com o véu da ilusão sobre os nossos olhos nunca, jamais ouviremos os conselhos de quem quer que seja. A não ser que aquilo esteja nos levando para onde queremos. E nem sabemos que, no fundo, só nos leva para o fundo do poço. A frase célebre de quem está completamente enganado é: “Eu sei muito bem o que eu estou fazendo”. Se você ou alguém que conhece falou isso, meu amor, está ferrado. Não tem a menor ideia e deve cair do cavalo em breve. Fazer o que?

A lucidez,  a consciência é o único antídoto para isso. Não existe outro. É se conhecer e saber quando está mentindo para si mesmo. E como diria Renato Russo: “Mentir para si mesmo é sempre a pior mentira”. Estar na sua consciência plena, o tempo todo. Procurar analisar de verdade a sua vida ao invés de arrumar mais uma distração (um filme, um livro bobo ou aplicativos de previsão do tempo, por exemplo) é um bom começo. Pensar em si, na sua vida, como se fosse outra pessoa te analisando. Um terapeuta interno, por que não? É a única maneira de nos treinar a sair das ilusões, das expectativas com relação aos outros e a nossa própria vida.   Andrea Pavlovitsch

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