Administração Feminina

Poucas mulheres comandam as 500 maiores empresas brasileiras ou mundiais. A diretoria das grandes companhias é em geral um clube do Bolinha, em que mulheres não entram. Da última vez que

contei, não passavam de cinco as mulheres presidentes das 500 maiores empresas brasileiras.

“Mulher não sabe administrar”, disse-me o dono de um conglomerado brasileiro, cujas filhas ficavam em casa e os filhos e genros ajudavam papai a tocar o negócio. ‘Administração é coisa para homem’, afirmou outro empresário. De fato, muito da teoria e modo de pensar em administração vem de uma forma masculina de ver o mundo: agressivo, calculista, sem escrúpulos.E muitos dos termos usados nesse meio têm origem claramente militar: ‘companhia’, ‘divisão’, ‘campanha’ publicitária, ‘guerra’ de preços, ‘aniquilar’ a concorrência, ‘conquistar’ mercados, e assim por diante.

A administração teve um avanço depois da II Guerra, quando várias técnicas desenvolvidas na época, como logística, pesquisa operacional, disciplina regimental foram usadas com grande sucesso nas primeiras multinacionais, necessitadas de que ordens fossem obedecidas a 15.000 quilômetros de distância da sede.

Nesta cultura militar e masculina, não é de estranhar que mulheres não se sentissem à vontade e desistissem da carreira nas grandes empresas. As poucas mulheres que galgam os altos escalões das 500 maiores, com todo o respeito que elas merecem, o fazem dançando a música dos homens. A contragosto, precisam dar uns socos na mesa de vez em quando e soltar alguns palavrões por aí. Sendo franca minoria, as mulheres nunca conseguem impor sua forma própria, um estilo feminino de administração.

Conheço todas as 500 maiores empresas brasileiras, as quais analisei durante 25 anos,e de cinco anos para cá comecei a estudar as 400 maiores entidades beneficentes deste país, uma pesquisa que realizo todo ano, e que encontra-se disponível na Internet no endereço www.filantropia.org.

Para a minha grande surpresa notei um novo estilo de administrar. Diferente, mais eficiente, mais competente e mais dinâmico do que aquele visto nas empresas ‘masculinas’. Aliás, não deveria ser surpresa, porque as entidades brasileiras sempre viveram com orçamentos apertados, nunca tiveram gordura para cortar. O estoque de uma fábrica fica parado por meses sem precisar de supervisão. Tente fazer o mesmo com 359 crianças de uma creche, por um minuto. Administrar creches, hospitais ou meninos de rua seria um treinamento excelente para os futuros administradores do país.

As 400 maiores entidades nacionais beneficentes são muito mais bem administradas do que a maioria das empresas brasileiras, por mais absurda que possa parecer esta minha observação. Existem várias razões para esse desempenho superior das entidades beneficentes. Clareza de propósito, ética, motivação dos funcionários, satisfação pessoal com os resultados. Mas a principal razão para mim é bem clara: a grande maioria, se não a totalidade das 400 maiores entidades, é administrada por mulheres.

Lá elas conseguiram impor, sem sombra de dúvida, seu estilo feminino de administrar, com técnicas novas, com concepções novas de gerenciamento, calçada em relacionamentos e não em orçamentos, uma administração mais leve, suave, num ambiente mais divertido.

O que me leva a pensar o que seria do Brasil se fosse administrado por uma mulher. Será que estamos preparados para aceitar como presidente da República alguém do sexo feminino?

Gerald Ford afirmou certa vez que depois da primeira mulher presidente nenhum homem seria eleito nos Estados Unidos. Quem será a primeira a ter coragem de se candidatar? Terá o meu voto.

Publicado na Revista VEJA, Editora Abril, edição 1659, Ano 33, nº 30 de 26 de julho de 2000, página 22

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