Administradores E Remadores

Uma fábula sobre a difícil arte de organizar o trabalho

No ano de 1996, houve, nos arredores de Osaka, uma competição entre as equipes de remo do Brasil e do Japão. Logo no início da competição a equipe japonesa começou a se distanciar e completou o percurso rapidamente. A equipe brasileira só conseguiu chegar à meta uma hora depois.

De volta ao Brasil, o comitê executivo reuniu-se para avaliar as causas de tão desastroso e imprevisto resultado. Uma cuidadosa avaliação apontou para uma diferença fundamental entre os times: a equipe japonesa era formada por um chefe de equipe e dez remadores: a equipe brasileira era formada por um remador e dez chefes de equipe. A decisão passou para a esfera do planejamento estratégico, com o objetivo de realizar uma profunda revisão da estrutura organizacional para o ano seguinte.

Em 1997, logo após a largada da competição, a equipe japonesa tomou novamente a frente e distanciou-se. Dessa vez, a equipe brasileira chegou à meta duas horas depois dos vencedores.

De volta ao Brasil, o comitê executivo reuniu-se para avaliar as causas do novo fracasso. A análise mostrou os seguintes resultados: a equipe japonesa continuava com um chefe de equipe e dez remadores; a equipe brasileira, após as mudanças introduzidas, era formada por um chefe de equipe, dois assessores, sete chefes de departamento e um remador.

A conclusão do comitê foi unânime: “0 remador é um incompetente!!!”

Em 1998 aconteceu uma nova oportunidade de competir com os japoneses. O departamento de engenharia pôs em prática um plano destinado a melhorar a produtividade da equipe, com a introdução de novas mudanças e melhores práticas gerenciais. Tais inovações produziriam aumentos significativos de eficiência e eficácia. Os brasileiros com certeza venceriam os japoneses.

Porém, chegado o dia da competição, o resultado foi novamente catastrófico e, dessa vez, a equipe brasileira chegou à meta três horas depois dos japoneses.

Novos estudos, reuniões acaloradas e enormes relatórios. A análise revelou: mantendo a tradição, a equipe japonesa era formada por um chefe de equipe e dez remadores. A equipe brasileira, por sua vez, utilizou uma formação vanguardista, integrada por um chefe de equipe, dois auditores de qualidade total, um assessor, um analista de O&M, um engenheiro de navegação, um chefe de departamento, um controlador de tempo e um remador.

Depois de vários dias de reunião e análise da situação, o comitê decidiu finalmente demitir o remador. Decidiu também contratar um novo remador, mas utilizando um contrato de prestação de serviços sem vínculo empregatício. Evitar-se-ia, dessa forma, a nefasta influência do sindicato dos remadores, responsável pela baixa produtividade e o baixo comprometimento dos recursos humanos com os objetivos organizacionais. A competição de 1999, certamente, confirmará o acerto das decisões.

Uma pesquisa recente do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) revelou que as mulheres estudam mais tempo que os homens mas ganham, em média, 30% menos. Mesmo assim, é visível que elas estão cada vez mais presentes em cargos de liderança no mercado de trabalho. Com isso, as mulheres líderes tiveram que aprender a sobreviver à competição e mostrar que são tão eficazes quanto seus colegas do sexo oposto.

A consultora Marianita Crenitte, especialista em desenvolvimento de carreira, acha que as mulheres vêm adotando, ao longo dos anos, uma postura mais racional nas empresas para poderem se equiparar ao estilo de liderança masculino. “Ao mesmo tempo, os homens também estão aprendendo a desenvolver características tipicamente femininas, como a intuição. É uma certa troca de papéis no mundo corporativo, o que é bastante saudável”. Ela afirma, porém, que as mulheres devem ficar atentas para não perderem suas características peculiares em nome da competitividade dentro do ambiente de trabalho. “A mulher não deve perder sua principal característica, que é a sensibilidade, aquilo que a fez se emancipar em meio a um universo masculino”.

Prova dessa evolução dos tempos é Tânia Nahuys, diretora de expansão e franquias da rede de restaurantes Spoleto. Ela é uma das sócias da empresa juntamente com outros três homens e afirma nunca ter enfrentado problemas por ser a única mulher entre os donos. “Todos sempre me respeitaram, inclusive por eu ser mais velha do que eles”. Em relação à convivência com outras mulheres, ela diz que “se a pessoa souber separar o lado pessoal do profissional, não haverá conflitos.” Tânia ainda afirma que a convivência com colegas e subordinados é tão tranqüila que ela até virou uma espécie de psicóloga no trabalho. “Dou conselhos para todo mundo, mas sem me envolver demais.”

Regina Juhá é dentista e coordena uma equipe de 20 pessoas na Odontoprev, operadora de saúde odontológica. São 18 mulheres e dois homens. Ela atua na parte administrativa, onde é a única representante do sexo feminino. “Tive que agregar ao meu comportamento uma postura mais sóbria, que atinge também meu vestuário.” Em relação à liderança da equipe, ela afirma não haver muita distinção entre homens e mulheres. “Ás vezes, porém, surgem alguns problemas quando a mulher tem filhos e eventualmente usa isso como motivo para faltar ao trabalho. Eu tenho dois filhos pequenos e sei que dá pra administrar bem a carreira e a família sem ter que abrir mão de um ou de outro.”

Pois não, chefa!

E o que os subordinados de mulheres líderes têm a dizer? Rosália Lucas de Freitas e Octávio da Silva Junior trabalham na secretaria da coordenação dos cursos de pós-graduação da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing) do Rio de Janeiro. Ambos são liderados pela professora Cecília Mattoso, diretora acadêmica dos cursos de pós da faculdade, e têm opiniões bastante semelhantes sobre sua liderança. “Ela é uma pessoa muito sensível, mas também reúne algumas características mais masculinas, como pensar e tomar decisões rapidamente”, diz Rosália, que ainda faz uma comparação com outra chefe mulher que já teve: “essa outra era bem insegura, fechada e, ao contrário da Cecília, ficava ainda mais mal-humorada nos dias de TPM (tensão pré-menstrual)”.

Sobre a diferença em ser comandado por pessoas dos dois sexos, Silva Júnior afirma que “a mulher é mais paciente e tem uma visão mais detalhada dos assuntos, ao contrário do homem, que vê tudo de uma maneira mais global”. Ele também diz que toma mais cuidado com as palavras quando está lidando com uma mulher. “Algumas vezes estou estressado com o trabalho e, se não dou bom dia para um dos meus chefes homens, ele não se incomoda. Já com a Cecília e outras mulheres é diferente, eu tomo mais cuidado com as palavras.”

O número crescente de mulheres ocupando cargos de liderança indica uma tendência de flexibilização nas empresas. O sociólogo e especialista em coaching comenta os pontos fortes da liderança feminina:

•A mulher é, por natureza, mais resistente que o homem, tanto física como psicologicamente. É capaz de suportar pressão melhor do que nós;

•A mulher tem a intuição e a comunicação bem mais desenvolvidas do que os homens.

Já com relação à principal competência que a mulher líder precisa desenvolver, o consultor afirma ser o senso de competição, tanto com homens quanto com mulheres. “A solução está na própria pessoa, que deve trabalhar sua fraqueza e transformá-la em ponto forte. É como fazer do limão uma limonada.”

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