Carreira É Senso De Oportunidade E Trabalho De Equipe

Certas abordagens no campo da consultoria ameaçam tornar a orientação profissional numa fábrica de receitas genéricas para tudo quanto é desejo razoável ou não: “Conte-me seus sonhos e eu mostrarei o caminho das pedras”. O problema é que nem sempre querer é poder. Mais que desejar, é preciso qualificação, competência e oportunidade práticas que favoreçam nossos objetivos.

A história mostra que mesmo os melhores planos falham e quase todos devem ser refeitos à luz da experiência, dos conhecimentos adquiridos e circunstâncias inesperadas. Com o tempo, acertamos o passo e o alvo, desde que estejamos preparados e disponhamos dos meios apropriados.

As reflexões ocorreram-me após rever o filme “Meu Adorável Professor”, que retrata a jornada de Glenn Holland (Richard Dreyfuss) como mestre de música numa escola do ensino básico. O Sr. Holland, a princípio, encara o emprego de professor de música como mero bico para se tornar um grande compositor. Nesse meio tempo, o magistério garantiria o sustento próprio e da família.

Talvez o plano fosse bom, talvez o professor tivesse talento, mas para seu azar os alunos não cooperavam. O entusiasmo pela matéria e método de ensino era próximo de zero. O tempo livre para compor a sinfonia que o conduziria à fama foi sugado pelas rotinas da Educação: preparar e dar aulas, corrigir provas, reuniões pedagógicas, Associação de Pais e Mestres etc. Em suma, o magistério não se afigurava como um trampolim para o salto na carreira. Diante de escolhas difíceis, o que fazer?

Sem muita criatividade, nosso herói arruma algumas justificativas marotas para proteger-se das críticas e do desencanto com a sua vida medíocre. “A situação é passageira! Dias melhores virão! É culpa do sistema, da escola, dos alunos, dos pais, do currículo, da sociedade. Eu sou a vitima”.

Apesar de espernear, o Sr. Holland sabe que é um professor apático e um marido e pai ausente. Como qualquer mortal, ele teve que enfrentar a sua hora da verdade: seguir o script banal de vida; subir num ônibus e ir para Nova Iorque tentar a sorte no trabalho e no amor; ou tornar-se uma pessoa melhor como professor, colega de trabalho, membro da comunidade, marido e pai.

Ele opta por ser um artista na escola, na sala de aula, na família, e assim consegue transformar vidas e destinos dos alunos em sinfonias anônimas, porém belas e gratificantes. “Embora muitas sejam as folhas, a raiz é só uma” – YEATS, William Butler, Com o Tempo a Sabedoria. A raiz do nosso herói eram a arte, as folhas, os distintos cenários em que seu talento podia vicejar.

Quando os planos falham, quando somos atropelados por circunstâncias fortuitas, o que realmente importa é driblar o destino e gerenciar as oportunidades ocultas no nosso cotidiano, que ignoramos por estarmos mais ocupados em nos queixar da vida do que em vivê-la.

Cuidado, portanto, com a armadilha da vocação primária, da carreira de trilha única e dos planos imutáveis. Às vezes escolhas cruciais como profissão, casamento, projetos de vida são feitos sem a devida maturidade emocional e intelectual. E, às vezes, devido à incapacidade de encontrar novos significados nas escolhas velhas, “caímos do cavalo”.

É um erro crer que o sucesso depende unicamente de nós. Mr. Holland tenta por três longas décadas tocar o seu plano de vida sozinho. Não funcionou. Para sair do beco em que se metera foi preciso, além do esforço pessoal, um par de mãos amigas. Os alunos ensinam ao mestre como ele pode ajudá-los a aprender. O filho, deficiente auditivo, ensina o pai a superar as adversidades. Esposa e colegas o apóiam e, assim, suas aulas se transformam em um celeiro de crescimento pessoal, profissional e espiritual.

O sucesso não é uma jornada solitária. É trabalho de equipe. Os alicerces da gestão da carreira estão dentro de nós, nos meios e no ambiente: consciência das forças e fraquezas individuais, senso de oportunidade, meios para executar os planos.

E, o mais curioso de tudo, o sucesso pode não estar nos objetivos que traçamos e na determinação em alcançá-los como se apregoa, e sim na habilidade de aproveitar oportunidades imprevistas e mudar o curso da história pessoal. Portanto, sonhar, sim, mas com os pés no chão e mente e espírito abertos.

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