Começou a Virada

As histórias reais das empresas que estão passando por cima da crise neste início de 2009, com números positivos que surpreendem seus próprios presidentes.

Hugo Cilo
Nos primeiros dias de fevereiro, o presidente da Mapfre Seguros, Antonio Cássio dos Santos, se mostrava irritado com o que andava lendo e ouvindo sobre a crise financeira internacional. Mas não se tratava de medo quanto ao rumo dos seus negócios no País. A palavra crise passou a incomodar assim que o executivo constatou que os números internos da companhia não refletiam o noticiário econômico. Havia um abismo entre o bom desepenho da seguradora, que vendia cada vez mais apólices de seguro para todos os segmentos produtivos, e o sentimento geral de que o mundo estava acabando. “Temos faturado em um mês o que antes faturávamos em um ano”, disse Santos à DINHEIRO.

Foi quando ele, então, tomou uma decisão extrema. Dias atrás, convocou 400 gestores da companhia para uma reunião de emergência em São Paulo. Todos pensaram que o encontro serviria para traçar novas estratégias de mercado diante da crise financeira mundial. Erraram. “Chamei a todos vocês para dizer que está proibido falar em crise a partir de hoje”, decretou Santos.

A decisão radical de abolir a crise do vocabulário dos mais de 2,5 mil funcionários da Mapfre, pelo menos durante o expediente, não se tratava de uma iniciativa autoritária do presidente da empresa, mas tinha como objetivo restaurar a confiança, abalada desde que as grandes economias do mundo foram sacudidas pela derrocada dos mercados financeiros. “Crise é igual a muleta, e tem sido muito usada como desculpa para não atingir metas”, justificou Santos.

Embora tenha surpreendido sua equipe, decisões como a de Santos têm sido comuns no meio empresarial. DINHEIRO ouviu dezenas de empresários que confirmaram o contraste entre o alarmismo do noticiário econômico e a realidade concreta das suas empresas.

Indicadores importantes da economia brasileira, apesar dos recentes anúncios de demissões, sugerem que a situação pode não ser tão ruim para o País como se imaginava no fim do ano passado. Na segunda-feira 9, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) lançou um estudo inédito sobre expectativas econômicas e sociais que revelou que nenhum setor produtivo se diz realmente pessimista quanto ao futuro do Brasil. “Existe uma apreensão natural em decorrência do noticiário negativo, mas o Brasil tem se comportado bem”, disse o presidente do Ipea, Marcio Pochmann.

Naquele mesmo dia, a associação que representa as montadoras, a Anfavea, divulgou crescimento de 92,7% na produção de veículos em janeiro, após dois meses de quase estagnação, e expansão de 24,4% das vendas de importados, apesar da forte valorização do dólar. Naquele momento, muitos disseram que os números eram apenas uma gota de notícia positiva num oceano de pessimismo.

Na quinta-feira 12, a Fecomercio-SP afirmou que o nível de endividamento caiu sete pontos percentuais em fevereiro e atingiu o menor patamar desde o início da pesquisa, em fevereiro de 2004: o percentual de famílias endividadas em fevereiro ficou em 38%, contra 45% em janeiro – neste mesmo mês, a inadimplência das famílias recuou 1,5%, segundo levantamento da Serasa Experian.

Também na semana passada, o presidente Lula convocou alguns dos principais empresários do País, como Luiz Furlan, da Sadia, e Sérgio Andrade, da Oi, para captar as percepções deles em relação à economia. Ouviu de todos que os números de janeiro têm sido surpreendentemente positivos.

Foi com esse cenário que Wlademir Araújo, presidente da Relevo Araújo, gigante brasileira do setor de embalagens, decidiu adotar uma postura semelhante à do presidente da Mapfre. Ao receber o relatório da empresa em sua mesa, mandou acelerar os planos de aumento da produção. Não é para menos: em janeiro, a empresa contabilizou expansão de 15,4% nas vendas e de 26,2% no faturamento.

“Cadê a crise? Quando vi os números, mandei colocar mais fogo na caldeira”, disse o empresário. “Não podemos parar por medo. O susto já passou”, acrescentou.

Evidentemente, nem as pesquisas nem os empresários têm a pretensão de maquiar os problemas reais com números positivos. No entanto, por trás das estatísticas e dos prognósticos pessimistas, inegavelmente existem empresas que ignoraram o cenário de turbulência e avançam a passos firmes. É o caso também da Renault. A montadora francesa vendeu no mercado brasileiro 14,7% mais carros no mês passado do que em janeiro de 2008, quando não havia nenhum sinal de crise.

Em comparação a dezembro, as vendas subiram 13,5%, num claro sinal de que os efeitos da recessão passaram longe dos portões da fábrica paranaense da montadora, em Curitiba. “A Renault continua acreditando no grande potencial do mercado brasileiro”, afirmou à DINHEIRO o presidente da Renault do Brasil, Jérôme Stoll, que está deixando o País para assumir um cargo de comando na França. E essa pujança não se limita a um ou dois setores da economia. “Mesmo com a crise financeira internacional, o crescimento do mercado de telefonia celular no Brasil continuará acima dos 10% ao ano”, afirmou o presidente da Vivo, Roberto Lima.

A situação diferenciada do Brasil na crise – um caso raro na história econômica mundial – recebeu destaque em um relatório global do banco HBSC. O documento de 13 páginas afirma que o País irá avançar mais rápido do que se esperava, a exemplo da China, e que o desempenho de ambos os países está diretamente relacionado. O estudo mostra ainda que a posição confortável brasileira reflete um sistema bancário sólido e mercado interno consistente.

Pesquisas e relatórios à parte, o fato é que mesmo os segmentos que inicialmente foram castigados pela crise começam a dar sinais de fôlego. Além da indústria automotiva, que voltou a acelerar com a restauração do crédito, setores como o de vestuário e calçados reconhecem que o quadro não é tão ruim como se acreditava e já começam a recontratar funcionários demitidos meses atrás.

“A expectativa é muito boa. Haverá a retomada da reposição dos estoques e retorno das contratações”, disse o presidente do sindicato da indústria de confecção (Sindivestuário), Ronald Masijah. Esse horizonte positivo para o setor é sustentado principalmente pela evolução do salário mínimo e consolidação da classe C no mercado de consumo. Segundo um levantamento da FGV, a renda do brasileiro tem crescido a despeito da crise mundial – o número de pessoas de classe média que ganham de R$ 1.115 a R$ 4.807, subiu 3,7% no segundo semestre de 2008, e atingiu 53,8% da população pela primeira vez na história. É essa faixa da população que se destacou como a grande estrela do consumo interno do País e que, neste fim de semana, é tema de uma reportagem da revista britânica The Economist, que destaca o papel da nova classe média como amortecedor da crise.

Existem ainda outros setores que avançam na contramão do terremoto financeiro. O ramo de telesserviços só conhece a crise de ouvir falar. As maiores empresas do setor têm investido pesado e contratado muita gente. A maior companhia do segmento, a Atento, está com um plano arrojado para o País neste ano. O presidente Agnaldo Calbucci afirma que as empresas têm buscado redução de custos por meio da eficiência, fator que impulsiona o setor. “Nossos planos estão mantidos. Vamos continuar crescendo e contratando. Nosso setor vai muito bem”, destacou o executivo. Fenômeno semelhante ao de call center acontece na indústria do turismo nacional. O encarecimento do dólar estimulou viagens dentro do Brasil, aumentou a ocupação em hotéis, locação de veículos e venda de pacotes. “Nosso faturamento disparou 40% em janeiro contra dezembro e 10% em relação a janeiro do ano passado.

Isso prova que o Brasil está em situação privilegiada”, afirmou o presidente da Avis, Afonso Celso de Barros Santos. Nessa mesma linha está o presidente da CVC Turismo, Guilherme Paulus. Depois de registrar crescimento de 30% em 2008 contra o ano anterior, ele achou que tinha visto tudo. Mas se surpreendeu com os primeiros 30 dias do ano. As vendas de pacotes em janeiro foram 17% maiores que no mesmo mês de 2008. “Nunca vimos isso. Ao contrário do que esperávamos, a procura está extraordinária. Pela primeira vez, não temos vagas mais para o Carnaval. Vamos fechar o ano com crescimento de 20%”, afirmou Paulus. “Temos caixa, emprego e condições de crescer. Não há por que ter medo”.

Outra evidente prova de otimismo é a Organização Odebrecht. Em 2007, por exemplo, a companhia criou 81,7 mil empregos diretos e indiretos. Este número pulou para 123 mil em 2008 e deve continuar aumentando, uma vez que a estimativa de faturamento do grupo para 2009 é de R$ 46 bilhões, R$ 4 bilhões a mais do que há dois anos. “Os números de nossa organização, indicando um crescimento acelerado em 2008 em relação a 2007, nos deixam otimistas em relação às possibilidades de superação da crise. O governo e a sociedade, em especial nós, empresários, devemos fazer o que é possível para ajudar o País a continuar gerando emprego e renda”, afirmou o presidente da companhia, Marcelo Odebrecht.

O otimismo se justifica. O início da construção da planta de polietileno verde da Braskem e a continuidade dos investimentos nas novas usinas de açúcar e álcool – três delas serão inauguradas este ano – serão outras fontes de criação de postos de trabalho em áreas críticas do País, como no Pontal do Paranapanema, em São Paulo.

Além disso, só no programa Acreditar, montado em Rondônia para capacitar mão-deobra local para a construção da Usina Santo Antônio no rio Madeira, foram recebidas 25 mil inscrições, formando mais de cinco mil trabalhadores (1,8 mil já estão empregados). Este programa será estendido a outros projetos e serão mantidos todos os investimentos em projetos sócioambientais e culturais, que chegaram em 2008 a R$ 73 milhões. Outro bom indicador da Odebrecht é o volume de investimentos. No período 2009-2011 deve chegar a R$ 19,2 bilhões, contra R$ 6,1 bilhões em 2008.

Pode ser que, nos próximos meses, a percepção de confiança desses empresários perca força com um eventual agravamento da crise internacional. Um risco que paira no horizonte é a redução das exportações, como o aumento do protecionismo comercial em várias regiões do mundo. No entanto, existe uma sensação de que o pior já pode ter ficado para trás e de que muitos analistas econômicos carregaram nas tintas ao traçar seus cenários para 2009. Se esses empresários estiverem certos, o País estará pronto para retomar um ciclo de crescimento acelerado bem mais cedo do que se imagina.

Colaborou: Márcio Kroehn   Matéria da Revista Isto É Dinheiro.