Exército de Pinóquios

Em “Ética Pessoal para o Mundo Real”, Ronald Howard e Clinton Korver demonstram como conduzir a vida profissional sem pesos na consciência

Longe de ser um eventual deslize, o artifício da mentira é um dos hábitos do ser humano. Pelo menos é o que concluem Ronald Howard, diretor do Centro de Decisão e Ética da Universidade de Standford, e Clinton Korver, fundador e presidente da DecisionStreet – empresa que desenvolve ferramentas web para que consumidores aprendam a escolher melhor seus produtos. Eles são os autores de Ética Pessoal para o Mundo Real. Lançado em julho, o livro funciona como um guia para executivos que pretendem conduzir sua vida profissional sem pesos na consciência.

Para embasar a obra, os autores conduziram uma pesquisa junto ao público universitário. Os alunos afirmaram contar em média duas mentiras por dia. Entre os catedráticos, o número cai pela metade – mas, ainda assim, são cerca de 30 mentiras mensais. Howard e Korver elencam outros fatos e estudos mostrando que a máscara de Pinóquio é usada com frequência muito maior do que se imagina.

Longe de justificar a mentira como uma prática humanamente inevitável, os autores apontam os males que a falta de sinceridade pode trazer ao ambiente de trabalho. A fraude, o roubo e a desconfiança generalizada são frutos possíveis daquelas pequenas mentiras que todos contamos no dia a dia – às vezes, sem sequer nos darmos conta disso.

Segundo os autores, um dos princípios básicos para escapar do vício da inverdade é traçar distinções nítidas entre o lícito e o ilícito. Além disso, é importante não dividir a ética pessoal da ética de trabalho – algo lamentavelmente comum nos dias de hoje.

Mas os autores também apontam exemplos positivos – entre eles, uma história referente à Outcome Software. No auge da crise das pontocom, no começo do século, os investidores pediram ao diretor operacional da companhia que não contasse aos funcionários que uma turbulência financeira se avizinhava. O temor era de que a companhia perdesse seus principais engenheiros de software.  O diretor, contudo, achou melhor contar toda a verdade ao quadro de funcionários, que, assim, entenderiam eventuais atrasos na folha de pagamento. A escolha pela honestidade fortaleceu os vínculos da equipe – tanto que apenas um dos 12 engenheiros pediu demissão.

“O diretor da Outcome Software preferiu ser transparente. Ele procurou toda a verdade dentro de si mesmo, criou alternativas que ressaltavam as relações com os stakeholders e aumentou as exigências de reciprocidade para tratar os outros como ele gostaria de ser tratado”, opinam os autores. O livro conta, ainda, outras histórias sobre dilemas éticos no mundo empresarial – trazendo lições fáceis, com uma pitada de filosofia nas entrelinhas.    Marcos Graciani