Como “Con-viver” Em Equipe No Dia-A-Dia

Desde os tempos mais remotos, quando os ancestrais do homem moderno povoaram o planeta, viram-se diante da necessidade de procurar outros da sua espécie para garantir a própria sobrevivência. Sozinhos eram fracos e unidos eram capazes de vencer as adversidades que surgiam a cada dia. Mesmo naquele tempo, foram criadas regras que determinavam a organização do grupo ou fatalmente todos viriam a perecer. Milhares de anos passaram-se, o homem evoluiu da chamada “idade da pedra” para a conquista do espaço e algo o acompanha até hoje: o convívio com seus semelhantes. O que podia parecer ser algo “teoricamente fácil” – o convívio com o próximo – nem sempre ocorre como se espera. Afinal, cada indivíduo traz consigo uma bagagem de informações, de concepções adquiridas ao longo da vida e interpretações sobre o mundo que algumas vezes chocam-se com a vivência do outro.

Essa dificuldade de aceitação não ocorre apenas na vida pessoal, mas também está presente no dia-a-dia organizacional. Por essa razão, as empresas têm dedicado grande atenção para ações que estimulem o espírito de equipe e consequentemente possibilitem uma melhor performance dos profissionais com vistas para o negócio.

Para falar sobre como “Conviver em equipe”, o RH.com.br entrevistou o escritor e consultor organizacional Gustavo Boog, para explicar o motivo que dificulta as pessoas conviverem no ambiente organizacional, como o líder pode levar as equipes a buscarem objetivos comuns e como o profissional de Recursos Humanos colabora diretamente para que isso seja uma realidade. “No trabalho em equipe não devemos buscar unanimidade, mas sim alinhamento, comprometimento e uma boa forma de lidar com as diferenças”, enfatiza Boog.

Gustavo Boog é um dos palestrantes do 3º ConviRH (Congresso Virtual de Recursos Humanos), evento promovido pelo RH.com.br que acontece no período de 14 a 29 de maio. Na oportunidade, sua palestra focará a temática “Os Inimigos da Motivação”. Confira a entrevista na íntegra e reflita se os colaboradores da sua empresa atuam ou não em equipe e de que forma você pode colaborar com esse processo. Boa leitura e caso o assunto motivação seja do seu interesse, não deixe de visitar o site www.convirh.com.br.

RH.COM.BR – Já se tornou uma rotina as organizações buscarem nos profissionais a capacidade de trabalhar em equipe. Essa é uma competência rara de ser encontrada nas pessoas ou não?
Gustavo Boog – A capacidade de trabalhar em equipe existe em todos nós, como um potencial que muitas vezes está sub-aproveitado. Se considerarmos que as competências só manifestam-se na sua inteireza se houver integração de conhecimentos, habilidade e atitudes, eu digo que trabalhar em equipe é uma competência ainda relativamente rara, mas que vem crescendo, pois ela é absolutamente fundamental para que uma organização encante seus clientes. Sem trabalho em equipe, as organizações só conseguem encantar seus clientes à custa de muito sangue, suor e lágrimas. E isto representa um grande desperdício de recursos e custos elevados. O trabalho em equipe é a busca de um ponto de equilíbrio entre as necessidades individuais e as do todo, e exige uma visão mais ampla sobre o que é o melhor para todos, ao invés de só olhar para o que é melhor para mim. Como isto entra em choque com a visão individualista que é tão disseminada em nossa sociedade, a competência real de trabalhar em equipe é ainda relativamente rara. Se você tiver dúvidas, tente negociar com seus vizinhos de condomínio ou de seu bairro a introdução de um novo sistema de segurança, nova jardinagem ou nas despesas de manutenção.

RH – O que caracteriza uma pessoa que sabe atuar em equipe?
Gustavo Boog – Um espírito aberto, onde haja a forte vontade de equilibrar o individual e o coletivo. Todos nós temos a vontade e a necessidade de brilhar como indivíduos. Isto é bom, saudável e positivo. Mas nós não brilhamos individualmente, nós somos parte de uma constelação que, por sua vez, faz parte de conjuntos maiores. A beleza da constelação depende do brilho de cada estrela que a compõe. E para eu brilhar não preciso apagar o brilho de quem está próximo a mim. Outras características, igualmente importantes são: capacidade de realmente ouvir o que os outros têm a dizer; reconhecimento de que o seu jeito de agir pode não ser o único certo, que existem outras formas; comprometimento com os resultados da equipe; alto grau habilidades de relacionamento interpessoal; flexibilidade para assumir diversos papéis na equipe, incluindo assumir a liderança quando necessário; cooperação e estabelecimento de um clima de confiança e de descontração; comunicação de forma clara, aberta e eficaz, bem como coerência entre o falar e fazer.

RH – Para conviver em equipe é preciso ser resiliente?
Gustavo Boog – A capacidade de ser resiliente, ou seja, de lidar bem com as crises e adversidades, com as pedras que virão no caminho, é necessária sempre para todas as pessoas e faz parte de nosso potencial de competências. Numa equipe é muito necessária a resiliência, pois as adversidades internas e externas à equipe sempre surgirão, e é preciso lidar bem com elas: divergências de opinião; discussão sobre o melhor método de trabalho e diferenças de personalidade. As lutas de poder são exemplos de adversidades internas. As externas podem ser exemplificadas por prazos externos radicalmente reduzidos, por redução de recursos para realizar as tarefas, por ingerências políticas ou familiares, entre outras.

RH – A capacidade de conviver em equipe é uma competência que pode desenvolvida por qualquer indivíduo?
Gustavo Boog – Sim, todos nós podemos desenvolver esta competência. O potencial existe, mas é preciso ter conhecimento dos conceitos e dos procedimentos para um bom trabalho em equipe, assim como a determinação de trabalhar desta forma, o que em geral entra em conflito com valores que aprendemos em outros contextos, como família, escola, esporte. Gosto da expressão “musculação emocional”, parecida com a musculação que podemos exercitar numa academia. Para desenvolver plenamente nossas competências de trabalho em equipe é preciso exercício, treino, persistência até que os novos comportamentos instalem-se.

RH – Quais os recursos que o gestor pode adotar no dia-a-dia para levar sua equipe a buscar objetivos convergentes?
Gustavo Boog – O papel das lideranças e do profissional de RH das empresas é fundamental como incentivo a estes novos comportamentos. O exemplo e a coerência entre o dizer e o fazer são recursos poderosos e insubstituíveis. Outro recurso é buscar o comprometimento de todos com os resultados a serem alcançados pela equipe, e isto pode ser atingido com a discussão participativa dos rumos e das metas a atingir, com aqueles que assumem a responsabilidade e os riscos pelo todo. Ouvir as opiniões, abrir espaço para as manifestações cria a “cola” que assegura a integração e o desempenho da equipe.

RH – Quais os indicadores podem revelar que uma equipe realmente existe e não é apenas um “rótulo”?
Gustavo Boog – Há diversos indicadores, que medem com precisão o clima e a cultura de uma determinada equipe. Estes indicadores podem também ser levados à totalidade da organização. Os mais importantes são: o grau em que existe uma visão precisa do que a equipe quer alcançar; a existência de fortes habilidades de relacionamento interpessoal; a maneira com que são resolvidos os conflitos e as divergências; como são equilibradas as demandas da inovação – futuro – com a reverência pela tradição – passado; a atuação e os estilos das lideranças; a flexibilidade com que são realizadas as tarefas da equipe; a intensidade da comunicação; o grau de confiança, a descontração e a cooperação existentes; como a equipe lida com novos membros; o processo de reconhecimento e de recompensa pelas ações individuais e coletivas. Em nosso Projeto Con-Viver em Equipe, por exemplo, usamos a Pesquisa Temática de Equipe – um diagnóstico preciso feito com a própria equipe, com recursos inovadores da Tecnologia da Informação, onde cada um avalia os indicadores. A partir das médias destes dados, discutidos em um workshop com as lideranças, são estabelecidos os raios-X do que ocorre nas diversas dimensões da equipe. São definidos os objetivos a serem alcançados – visão de futuro – e os planos de ação, muito concretos, simples, rápidos, diretos e eficazes. Com um acompanhamento periódico, os conceitos e a prática do trabalho em equipe se concretizem no dia-a-dia de todos os participantes da equipe.

RH – Quais os fatores mais comuns que comprometem a formação de uma equipe?
Gustavo Boog – A inexistência ou a carência dos fatores que já citei vai constituir-se em um grave obstáculo não só à formação, mas também à manutenção e ao desenvolvimento da equipe. Em nossos projetos de Pesquisa de Clima Organizacional encontramos com freqüência indicadores com avaliações ruins na maneira com que são resolvidos os conflitos e as divergências da equipe, nas dificuldades de comunicação e no excesso de fofocas – este geralmente é o item pior avaliado, na atuação inadequada das lideranças, na baixa confiança existente e no processo de reconhecimento e recompensa pelas ações individuais e coletivas.

RH – Quando se fala sobre equipe, logo vem à mente a presença de um gestor. O líder que forma uma equipe possui competências específicas?
Gustavo Boog – O líder deve ser uma pessoa que saiba inspirar os outros, usando mais sua influência e seus conhecimentos que o poder que emana de sua posição hierárquica. Deve saber definir de forma compartilhada a visão de futuro da equipe, ou seja, as metas e os resultados a serem alcançados. O líder deve ter uma excelente competência para o relacionamento interpessoal, deve saber planejar e acompanhar o progresso, enfim, deve ser o profissional que saiba assegurar as condições para que a equipe funcione bem. Em resumo, deve ser muito mais líder e muito menos chefe.

RH – É possível imaginar uma equipe sem a presença de um líder, mesmo que os profissionais sejam altamente competentes?
Gustavo Boog – Quando falamos em líder, em geral aflora em nossa mente a idéia de um dirigente, de alguém que se coloca na frente do grupo e o guia. É quase a visão militar de um chefe que conduz a equipe. Mas uma equipe bem treinada, bem motivada, que tem processos definidos, que vê significado em suas ações, em muitos momentos pode agir e ter excelente desempenho mesmo sem a presença do líder. As pessoas sabem o que fazer, porque fazem e qual o impacto no trabalho dos outros, têm o sentido de finalização e de encantamento ao cliente, quer seja interno ou externo. O líder fica como um recurso a ser utilizado pela equipe em momentos especiais como, por exemplo, na entrada de novos membros, na implantação de novas atividades que estejam fora da experiência das pessoas e em momentos de mudança de ritmo de trabalho.

RH – O conflito sempre estará presente nas equipes? Por quê?
Gustavo Boog – Quer chamemos de conflito ou de divergência de opinião, isto estará sempre presente, pois no trabalho em equipe sempre se busca o equilíbrio entre o individual e o coletivo. Cada pessoa tem sua forma de perceber a realidade, e mesmo que haja grande alinhamento, as diferenças surgirão, pois as pessoas são diferentes. Todos, dentro de nós, temos quatro personagens, que denominamos: rei – guerreiro – mago – amante. Estes personagens integram-se na equipe e vão assegurar que as melhores decisões sejam tomadas e as melhores ações realizadas. Mas é preciso conhecer em primeiro lugar a si mesmo, as formas de reagir, as prioridades, o foco da atenção, as maneiras prediletas de resolver uma situação. E em seguida conhecer o tipo de atuação dos outros. Assim, os conflitos não serão eliminados, mas com certeza serão minimizados. Com isto a equipe direciona as energias em prol dos objetivos comuns a alcançar, ao invés de ficar desperdiçando energia com conflitos interpessoais.

RH – Até que ponto o conflito é considerado positivo e quando ele passa a ser uma ameaça à equipe?
Gustavo Boog – Quando o conflito deixa de ser profissional e passa a ser pessoal, temos um indicador de que o conflito passou do limite do aceitável. O conflito enquanto embate de idéias, de formas de realizar a tarefa, de discussão de alternativas é algo positivo que força a equipe a buscar a melhor solução, trabalhando o consenso. Sempre que uma decisão é imposta à equipe, temos o risco do não comprometimento. Tenho experiência de alguns trabalhos de equipe em que o “chefe” impôs sua decisão e levou a equipe ao fracasso. O consenso é alcançado quando cada pessoa e todas as pessoas da equipe podem dizer: esta decisão me aprece razoável, eu consigo conviver com ela. Talvez se eu fizesse sozinho, faria um pouco diferente, mas considerando todos os argumentos apresentados, eu apoio e me alinho com esta decisão.

RH – Uma equipe é formada obrigatoriamente por pessoas com comportamentos semelhantes ou a diversidade é muito bem-vinda, nesse caso?
Gustavo Boog – Em uma equipe, assim como na sociedade, temos que aprender a “con-viver” com as diferenças e com a constatação de que os diferentes são só diferentes, e que eles não necessariamente estão errados. Portanto, a diversidade é altamente desejável e necessária para um bom trabalho em equipe. No trabalho em equipe não devemos buscar unanimidade, mas sim alinhamento, comprometimento e uma boa forma de lidar com as diferenças. Este é o desafio, e quem melhor souber lidar com ele, melhor se sairá no competitivo ambiente organizacional, nos negócios e no encantamento dos clientes e usuários.

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