Como Trabalhar A Inveja

“Não se resolve o ressentimento torcendo pela queda do outro,
porque negar as próprias limitações a partir dos limites
dos outros não dá vida a ninguém”
No artigo anterior, respondendo às perguntas dos leitores sobre a inveja, caracterizamos esse sentimento negativo, enfatizando o seu efeito devastador nas nossas relações. E no final, perguntávamos: Como trabalhar a inveja, seja a nossa ou a dos outros? Se a inveja é fruto da comparação, é nesse ponto que devemos centrar nossa atenção. Um exercício prático é o desenvolvimento sistemático da auto-comparação, a comparação com nós mesmos. Sabemos sempre muito bem quanto ganham os nossos vizinhos, os nossos amigos, os nossos parentes, mas jamais fizemos uma análise do índice do nosso crescimento nos últimos anos. Estamos hoje piores ou melhores do que éramos ontem? Em termos sociais, psicológicos, financeiros e espirituais, estamos melhores ou piores do que estávamos há algum tempo?
Há uma grande diferença entre a comparação com os outros e a comparação com nós mesmos. Na auto-comparação, fortalecemos o nosso eu, o nosso centro, o nosso ponto de equilíbrio. Passamos a nos dirigir em função do que realmente somos e não em função do que os outros esperam de nós. Não se resolve a inveja ou o ressentimento torcendo pela queda do outro, porque negar as próprias limitações com os limites dos outros não dá vida a ninguém. A auto-comparação leva-nos a um fortalecimento interior. Fortalecemos a nossa identidade, reencontramos a nós mesmos, passamos a ser o nosso próprio ponto de apoio. Cada pessoa tem o seu ritmo, o seu jeito, o seu caminho, o seu próprio nível. Não estamos no mundo para sermos mais do que alguém, mas apenas para realizar o nosso próprio potencial, para sermos cada vez mais, cada vez melhores.
No fundo de cada sentimento de inveja, existe o sentimento de admiração, mas este só pode desabrochar quando estamos muito centrados no nosso próprio tamanho. O invejoso quando vê alguém a quem deveria admirar, tende a diminuir essa pessoa. Esta é a diferença entre as estrelas e os planetas. Cada estrela é de uma grandeza, de um tamanho, como nós, mas tem sua luz própria, brilha com sua própria luz. O planeta não tem luz própria e só consegue brilhar roubando a luz das estrelas. Só quando formos padrão de nós mesmos, reencontraremos a alegria de ser o que somos, de ter o que temos, de viver como vivemos. Somente o exercício da auto-comparação nos levará à auto-aceitação, à realização do nosso próprio potencial. A partir da auto-aceitação incondicional, nós nos valorizamos e estruturamos uma auto-estima salutar, base de uma vida psicológica saudável.
O invejoso, ao julgar e denegrir o outro, esconde, na verdade, uma auto-aversão, fruto de um rigor excessivo consigo mesmo. Auto-estima baixa e inveja andam de mãos dadas.Todo movimento em direção ao auto-amor é um antídoto à inveja. O contrário da inveja é a admiração, o amor. Se amamos alguém queremos o seu bem e ficamos felizes com o seu êxito, com sua felicidade. A inveja impede a realização do amor na relação entre pais e filhos, entre irmãos, no namoro ou na amizade. Amar é ficar alegre com a alegria do outro. Invejar é não suportar a felicidade do outro. No relacionamento amoroso, ao invés do confronto, da hostilidade, da competição, o caminho é de identificação e proximidade com o outro. A inveja destrói os relacionamentos mais próximos. Todos nós tendemos a nos colocar acima dos outros para sermos amados e admirados. Com a inveja, no entanto, obtemos o resultado inverso: as pessoas se afastam de quem é uma ameaça para elas. Ao nos aceitarmos tais quais somos, com serenidade podemos admirar aqueles que são melhores do que nós e aprender com eles. A crítica, instrumento por excelência da inveja, desqualifica o outro. A admiração, instrumento por excelência do amor e do aprendizado enaltece o outro no que ele tem de melhor e nos une a todas as outras pessoas. Afinal, todos nós fazemos parte da grande família do mundo e é a diversidade entre as pessoas, nas suas qualidades e competências, que nos faz companheiros de viagem e de crescimento. Não estamos no mundo para sermos melhores do que os outros, mas para sermos, cada vez mais, um pouco melhores.
Antônio Roberto Soares
Jornal Estado de Minas – Bem Viver

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *