Cultura meia-boca, nem pensar!

Acho impressionante como tem gente que se contenta em adquirir produtos meia-boca:

– Bom dia, gostaria de comprar um sapato, mas não quero gastar muito. O que o senhor sugere?
– Ah sim… eu tenho este aqui, a sola é colada com grude e o couro na verdade é um plástico disfarçado, mas o preço vale a pena, e você pode parcelar em trezentas vezes no cartão.
– Beleza. Pode embrulhar.

Nunca gostei de nada que fosse meia-boca. Carro meia-boca, mulher meia-boca, roupa meia-boca, emprego meia-boca, atendimento meia-boca, restaurante meia-boca… nada disso me agrada. Sempre achei que não vale a pena comprar produtos meia-boca.

Mas e quanto a nós? No que diz respeito ao conhecimento que temos do mundo, será que vale a pena sermos pessoas meia-boca?

Pensando um pouco sobre isso, parece-me que não, não vale a pena ser meia-boca. Porque pessoas meia-boca são infelizes.

Se você quer ter qualidade de vida, só há duas opções: ou você se mantém em uma completa e total ignorância, ou se empenha em ter um nível cultural elevado. Quem opta por ter um conhecimento meia-boca do mundo acaba sendo infeliz. Vejamos se isto faz algum sentido.

Valdinei é um pescador que vive com sua esposa e com suas duas dúzias de filhos piolhentos em uma pequena cabana feita de palha e barro, lá no meio do nada, duzentos metros à esquerda de onde o demo perdeu as botas e a noroeste de um fim-de-mundo sem nome. Quem vê o Valdinei lá, deitado na rede e tomando sua pinga no final da tarde, pode até pensar algo como “pobre coitado, que vida infeliz leva esse sujeito”. Pois saiba que, muito provavelmente, olhando pra você do alto da palafita lamacenta, o Valdinei está pensando exatamente a mesma coisa sobre você.

Para Valdinei, a vida é apenas uma sequência despreocupada de um dia após o outro, sem hora pra acordar, sem contas pra pagar, sem trânsito, sem chefe, sem desejos materialistas… O Valdinei não tem nenhum sonho, nenhuma grande aspiração na vida. E se uma pessoa não tem desejos, como pode ser infeliz, visto que a medida da felicidade nada mais é que a razão entre nossos desejos e a satisfação destes desejos? Estou certo de que pelo mundo existem muitas pessoas que levam uma vida extremamente simples, mas que vivem felizes.

Agora voltemos nossa atenção para o sujeito meia-boca. Ele estudou, como todo mundo neste mundo, e sabe que o homem já foi à Lua (apesar de não fazer a menor idéia de como conseguiram isso e pra quê serviu a viagem), sabe que tomar aspirina é bom pra curar dor de cabeça (apesar de não fazer a menor idéia de como uma bolinha branca pode aliviar seu sofrimento) e sabe muitas outras coisas, mas seu conhecimento é sempre meia-boca. Ou seja, ele sabe uma determinada coisa, mas não entende como a tal coisa funciona em seu âmago.

Muito provavelmente as pessoas não conhecem nada a fundo porque consideram muito mais importante saber da vida do vizinho do que saber de que é feita a aspirina.

Pessoas assim, com cultura meia-boca, costumam focar seu bate-papo em outras pessoas. Sempre que se reúnem, costumam conversar sobre o que fulano fez, o que ciclano falou, sobre o carro novo da fulana ou sobre os filhos da ciclana. É incrível como pessoas de cultura meia-boca adoram conversar sobre a vida alheia. E é justamente aí que vêm os problemas em ser uma pessoa meia-boca. Veja:

De tanto falar sobre a vida alheia, a pessoa meia-boca começa a se importar com o que os outros estão falando sobre ela própria. Esta preocupação se transforma em stress. O stress vem acompanhado de um desejo de provar aos seus vizinhos que seu carro é melhor que o deles, que sua roupa é mais chique, que sua família é mais esperta. Ou seja, a pessoa vive imersa em um mundo de preocupações idiotas, e isso tudo só pode causar infelicidade.

Agora voltemos nossos olhos para aquele sujeito que conhece o mundo em muitas de suas facetas. Alguém como o Jô Soares, digamos. O sujeito conhece Filosofia, entende as leis da Natureza, está a par dos avanços da ciência e da tecnologia, conhece as expressões de diversas culturas. Para uma pessoa assim, lidar com os problemas e anseios da existência é fácil. Mais que fácil, chega a ser uma diversão. Dificilmente algo pode deixá-lo infeliz.

O vizinho fofocou que seu cabelo é feio? Quem se importa?
O outro vizinho comprou um carrão importado? Que legal. Tomara que compre um melhor ainda.
A filha da vizinha engravidou? A vida é dela, e ela faz o que quiser.
O filho do outro vizinho parece veadinho? A vida é dele, faça o que quiser.

Enfim, quem busca sempre o aprimoramento cultural parece se distanciar cada vez mais desse mundo de fraqueza emocional e de preocupações idiotas. Consequentemente, seus dias vêm a ser muito mais agradáveis.

Assim, estou absolutamente convencido de que existem somente duas maneiras de livrar a mente das angústias que vemos diariamente atormentando as pessoas: ou você escolhe ser um completo ignorante, ou escolhe conhecer a fundo a vida. Em ambos os casos a vida tenderá a ser muito boa. O que não dá é pra ser meia-boca.

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