Entrevista de Desligamento: Mal Ou Bem Necessário?

Já houve um tempo em que entrevistar as pessoas que deixavam o trabalho era com acreditar que o Coelhinho da Páscoa existe quando já se passou dos 30 anos! Pouco interessava se elas tinham queixas, ou sugestões ou comentários ou se sequer tinham algum tipo de pensamento a respeito do que estava acontecendo. Trabalhador não passava disto: alguém que trabalha pelo salário – mesmo que de fome – e que se resigna a ser mandado e desmandado, inclusive para o olho da rua!

Depois houve um tempo em que entrevistar as pessoas que eram desligadas da empresa ou pediam demissão era tudo! Os comentários, sugestões ou queixas poderiam ser o caminho para que os eternos problemas de RH fossem resolvidos. Bastava aplicar um questionário bem abrangente e marcar um “x” – ruim, bom, muito bom ou excelente e já sabíamos a quantas a empresa estava. Claro que de preferência bem na foto, porque pouco ou nada era feito para reverter um cenário nem sempre bem pintado por aqueles que eram chamados a avaliar benefícios, chefes, instalações, remuneração, etc., etc., etc.

O tempo foi passando, começamos a falar de gestão, de conhecimento, de competências, a tecnologia da informação esta aí, os funcionários têm mais acesso à educação e a informação, as máquinas e equipamentos se sofisticaram e eis que as empresas têm que necessariamente se aprimorarem para lidar com pessoas.

Só o fato de usarmos a palavra gestão para designarmos a atuação em recursos humanos, já implica em um patamar de comprometimento com as pessoas muito maior do que num sistema burocrático, até porque gestão de pessoas é uma ação que permeia todo o negócio. Neste caso, a entrevista de desligamento se mostra mais uma das possibilidades de revelar este comprometimento, além de traduzir uma relação de respeito e responsabilidade por aquele que, independente de quem foi a iniciativa, nos deixa.

Entrevista de desligamento é fonte de conhecimento – Não podemos deixar de considerar que a entrevista de desligamento é uma fonte de conhecimento, este é o principal motivo para que usemos este instrumento. Saber como aquela pessoa vê a empresa e seus diversos processos e também como ela avalia seu período de permanência naquele negócio. Outro objetivo, não menos importante do que o primeiro, é dar suporte e orientação para a pessoa. Especialmente quando alguém é desligado, há um fluxo de emoções muito complexas, que passam pela raiva, frustração e menosvalia, sem contar que na hora em que estão me dizendo que não querem mais meus serviços eu paro de escutar!

Os ruídos emocionais se tornam excessivamente altos e com certeza eu não escuto e muito menos registro o que estão me dizendo. Após certo tempo, uma semana, a “ficha” já caiu, já chorei, já xinguei, já fiz algumas contas e pude conversar com os amigos que me deram toda a força e com aqueles, raros, porém valiosos, que me farão refletir. Este é o momento de voltar a empresa, saber do processo legal que se segue e conversar sobre o que se passou.

A entrevista de desligamento deve ser usada tanto em situações de afastamento voluntário como nos de demissão conduzida por iniciativa da empresa. Quem pede para sair de uma empresa não faz isto por acaso: melhores oportunidades de carreira? Maiores desafios? Salário? Benefícios? Clima e cultura organizacional? Estilo de liderança? Há enfim um número grande de motivos que levam alguém a querer sair de uma empresa.

Por outro lado é a oportunidade da empresa pontuar os motivos do desligamento. As empresas não são em sua essência boas ou más, mas ter o descalabro de dizer que esta desligando aquela pessoa por reestruturação é de uma maldade sem fim; ninguém demite o melhor.

Explico: de fato em determinados momentos as empresas precisam cortar custos fixos e decidem demitir pessoas, mas claro que há critérios nesta escolha e geralmente eles se referem a desempenho e comportamento. Se aquela pessoa nunca foi alertada para as dificuldades que apresentava é o momento certo para dizer o que motivou a empresa a demiti-la – é uma grande oportunidade para que ela se avalie e ao buscar um novo emprego possa cuidar para não repetir os mesmos erros e crescer.

Oportunidade de feedback – Essa ferramenta proporciona à empresa ou ao funcionário que está sendo desligado a oportunidade do feedback. Via de regra para a empresa, além das informações, promove na pessoa a percepção de que ela não esta sendo jogada no olho da rua; que a empresa a respeita e valoriza e que, portanto tratar a empresa com igual respeito é interessante. Para o funcionário pode ser a oportunidade de manifestar suas opiniões sobre a empresa, a chefia e políticas. Apesar deste tipo de depoimento trazer certa dose de “emocionalidade”, não podemos supor que será tendencioso. As pessoas tendem a ser maduras quando percebem que há respeito.

Existem muitos modelos de entrevistas de desligamento em manuais de administração e de recursos humanos, mas com certeza cada empresa pode ter seu modelo; o interessante é que este momento seja suficientemente aberto e realizado por um representante da empresa que seja percebido como confiável e amigável, mas que seja capaz de ser firme e não se identifique e se penalize pelo outro –senão o sofrimento será de ambos e isto não ajuda nem a Pessoa desligada nem a empresa.

Na medida do possível este processo deve ocorrer num local reservado; não precisa ser a portas fechadas, mas privacidade é fundamental. Respeito é fundamental e isto significa que o entrevistador estará disponível, não atenderá telefones, não sairá correndo da sala porque passou alguém com quem ele queria falar, não dirá nunca que o outro tem sorte porque agora está livre daquela empresa ou que o outro, coitado, é uma vítima do sistema. Também, jamais elogiará a empresa maravilhosa, os mil benefícios, o quanto somos uma família, felizes em ver que a empresa mais uma vez fez a coisa certa. Bom senso, cortesia, respeito e condição de colocar limites, são características de um bom entrevistador.

Portanto, o entrevistador deve ser preparado para utilizar esta ferramenta até porque há um aspecto importante que nos caracteriza: somos basicamente relacionais (o modelo brasileiro de gestão passa pelas relações interpessoais com seus desdobramentos mais nefastos aí inclusos, como por exemplo, o nepotismo). Há de modo geral um constrangimento em se tratar do desligamento das pessoas. Isto resulta na empresa não ser clara quanto ao motivo do desligamento, colocando panos quentes, omitindo ou muitas vezes inventando desculpas esdrúxulas para se justificar, passando pela conduta protetora e sua conseqüente identificação com a “vítima” do desligamento. Perdemos a isenção de ânimo frente a um fato cotidiano e vivenciado por todas as pessoas – a rejeição.

Quando um amigo se afasta, quando terminamos uma relação, quando não somos convidados para uma festa, quando somos demitidos, estamos passando pelo mesmo processo. Só que muitas vezes, nós e os que estão a nossa volta não conseguimos lidar com isto de forma clara. O que acontece? A situação como um todo só cresce em sofrimento e aí é que falta capacitação para, tecnicamente, lidarmos com um evento cotidiano.

Vale ressaltar que qualquer profissional da empresa pode conduzir este processo, desde que tenha maturidade e competência para dar suporte, ouvir e analisar as informações que recebe, sem mostrar-se compadecido ou prepotente.

A questão da chefia imediata fazer a entrevista de desligamento é um pouco mais delicada pois emocionalmente ele é parte ativa deste processo e do outro lado da mesa está alguém para quem ele deu uma triste notícia – não se pode esperar que os ânimos se mantenham britanicamente sob controle! Melhor é que a entrevista tenha neutralidade e que a chefia também seja ouvida, mas em separado.

Cuidados necessários – Alguns cuidados são necessários, especialmente por parte do entrevistador. Não se deve em hipótese nenhuma emitir juízo de valor. O ideal é que se façam perguntas claras que requeiram respostas igualmente objetivas, mas que ao serem dadas com emoção encontrem um interlocutor sereno, disponível e capaz de apontar dados e fatos que possam amenizar tal emoção, sem desmerecê-la.

As perguntas de uma entrevista de desligamento devem ser do tipo abertas e fechadas. Se for para obter respostas do tipo sim ou não, bom ou ruim, é melhor aplicar um questionário. Se for para “discutir a relação”, é melhor encaminhar para um terapeuta! Esta é uma oportunidade para ambas as partes se avaliarem: quem esta sendo desligado refletir sobre suas experiências, o que aprendeu e o que contribuiu o que poderia ter aprendido e como foi seu desempenho. A empresa refletir sobre a percepção das pessoas a seu respeito, suas políticas e práticas, no que pode evoluir.

Porém algumas questões práticas devem ser abordadas: o motivo do desligamento; oportunidades que a pessoa teve de participar de cursos, por exemplo; sua avaliação dos benefícios; como ela percebe a empresa; seus planos e se for o caso orientar como a empresa pode ajudá-la a buscar um novo emprego.

Sempre vale lembrar que o funcionário desligado tem o direito de se recusar a participar de uma entrevista de desligamento. Primeiro porque ele pode estar com muita raiva, ou muito magoado. Segundo porque ele pode estar muito aliviado em sair daquele ambiente, ou ainda porque acha que não tem o que dizer, até porque às vezes não tem mesmo.

O que se deve ter em mente durante este processo é que está na nossa frente alguém que contribuiu e que recebeu algo em troca do seu trabalho. Que tem uma percepção sobre a empresa e seu desempenho e que mesmo que esta percepção seja distorcida este é o momento para que se trate do assunto. A empresa que se propõe a tratar do outro com respeito, com certeza também será respeitada. Portanto, desligar não precisa ser o fim do mundo; pode ser o início de uma nova etapa, para ambas as partes. Tudo depende do grau de maturidade com que lidamos com a situação.

Lise Steigleder Chaves é diretora de Conhecimento e Pesquisa, CC&G Gestão de Pessoas

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