Grupos De Desenvolvimento Humano

1. OS OBJECTIVOS DOS GRUPOS DE ENCONTRO

Os grupos de encontro têm de um modo geral várias designações, embora nem sempre estas tenham significados ou objectivos semelhantes. Este tipo de grupos (T-groups) têm como objectivo a experiência humana em conjunto, de forma planeada e intensiva. Também são designados grupos de treino de sensibilidade das capacidades de relacionamento humano.

Genericamente, podemos considerar os grupos de encontro como grupos de desenvolvimento humano, já que estes que têm por objecto de atenção a natureza das interacções recíprocas e os processos grupais.

Procura-se através deste tipo de grupos que os indivíduos sejam capazes de se compreender a si próprios e obtenham maior capacidade para lidar com situações interpessoais difíceis.

Os grupos de desenvolvimento objectivam também no decurso do seu processo proporcionar as condições que permitam aos seus participantes entrosar as aprendizagens experienciais com as aprendizagens cognitivas, de forma a reduzir a clivagem entre estas duas dimensões da vida humana.

2 – O PROCESSO DOS GRUPOS DE ENCONTRO

O processo dos grupos de encontro contempla um conjunto de estádios de desenvolvimento que caracterizam de um modo geral este tipo de associações. Sobre esta matéria, seguiremos de perto as experiências de Carl Rogers e seus colaboradores (Rogers, 1984b: 27-48).

A complexidade interaccional destes grupos é demasiado elevada para que a possamos tipificar ou decompor, e muito menos ordená-la de acordo com as múltiplas variáveis que presidem à dinâmica da sua acção.

No entanto, por questões de metodologia e de entendimento, torna-se necessário dar forma sistematizada à complexidade das relações humanas para que, desta forma, nos seja possível não só compreender os fenómenos e os processos, como objectivá-los, para que a sua análise seja transmissível a outros.

Algumas das variáveis dos processos grupais manifestam-se mais cedo e outras mais tarde, não havendo por isso mesmo uma ordem predefinida na sua assunção. Todavia, Rogers propõe-nos as seguintes fases do processo grupal, sem que no entanto tenhamos de lhe atribuir um carácter rígido na ordem da sua manifestação.

Fase de hesitação (ou andar à volta). Esta fase caracteriza-se por uma tendência inicial de confusão, normalmente após o facilitador declarar a liberdade que o grupo tem em matéria de organização e de expressão.

Neste contexto, para além do silêncio incomodativo, próprio de quem se encontra pela primeira vez num ambiente deste tipo, verifica-se uma tendência em os elementos participantes do grupo se envolverem em conversas de salão.

Gera-se habitualmente nesta fase um sentimento de frustração em alguns indivíduos, ao aperceberem-se de que afinal não é para eles clara a estrutura e os objectivos do grupo. A descontinuidade das intervenções, relativamente aos assuntos abordados, é flagrante. Um ou outro sujeito sugere a discussão de determinado tema, sem contudo levar em consideração o tema ou os temas já propostos pelos outros participantes.

A questão fulcral nesta fase acaba por centrar-se quase colectivamente no problema da liderança. Ou seja: quem irá assumir o comando e o controlo deste processo grupal?

Resistência à expressão ou exploração pessoais. Nesta fase, os participantes do grupo tendem a manifestar algum receio em revelar e aprofundar o seu mundo interior, preferindo pelo contrário focar a sua atenção na exterioridade das suas vivências. Com o decorrer do tempo, alguns membros do grupo vão trocando a exterioridade pela intimidade do seu eu.

Descrição de sentimentos passados. À medida que o tempo decorre na vida do grupo, e apesar ainda de contradições e desconfianças porventura presentes, este vai-se gradualmente abrindo à manifestação dos seus próprios sentimentos. Mas nesta fase trata-se ainda de sentimentos relativos a realidades passadas e referentes a personagens extra-grupo.

Expressão de sentimentos negativos. Ao entrar nesta fase, o grupo tende a expressar não já sentimentos relativos ao passado e a personagens exteriores ao grupo mas ao aqui e agora da vida grupal.

Com efeito, a atenção dos participantes do grupo vira-se para outros participantes ou para os facilitadores, não raras as vezes mediante a expressão de sentimentos negativos.

A expressão de sentimentos negativos pode, em primeiro lugar, dever-se a uma estratégia dos participantes em não quererem arriscar a manifestação de sentimentos positivos relativamente a outros. Será, talvez, mais cómodo defendermo-nos das asserções negativas do que nos defendermos do comprometimento com os outros, considera Rogers.

Expressão e exploração de material com significado pessoal. Esta fase caracteriza-se por uma tendência dos participantes em confiarem gradualmente no próprio grupo e em considerá-lo como seu.

Neste período de evolução, os indivíduos percebem, ainda que com alguma relutância, que há no grupo liberdade e aceitação das suas pessoas, que lhes permite que os seus sentimentos negativos sejam aceites – é pois a caminhada para um clima de confiança.

Expressão de sentimentos interpessoais imediatos no grupo. A partir desta fase, tanto é possível observar no grupo sentimentos positivos como negativos. Trata-se de facto da expressão de sentimentos por parte de uns relativamente a outros participantes, como resultado da vida grupal.

Desenvolvimento da capacidade terapêutica do grupo. Com frequência, no decorrer do processo grupal surgem participantes com capacidade de, natural e espontaneamente, intervir de forma terapêutica no mau estar e no sofrimento dos outros.

Não raras as vezes, é possível observar a preocupação e a dedicação de alguns participantes em apoiar ou clarificar o turbilhão de sentimentos que por vezes irrompem de forma abrupta noutros participantes.

Aceitação do eu e início da mudança. Os princípios da terapia centrada na pessoa consideram que o início da mudança toma lugar com a aceitação da própria pessoa.

Quer dizer, quando o participante consegue em contexto grupal aceitar-se como é e não como os outros gostariam que ele fosse, então começa a verificar-se a mudança e a criarem-se as condições para o seu desenvolvimento pessoal.

O indivíduo como objecto de reacção dos outros. Em virtude do tempo decorrido e das vivências pessoais e colectivas proporcionadas pelo próprio grupo, os participantes tornam-se por vezes alvo das percepções e considerações que os outros fazem ou pretendem fazer sobre si.

Não raras as vezes, há participantes que em contexto grupal expressam a sua amizade por um ou outro membro, enquanto outros podem manifestar os mais negativos sentimentos por outros participantes.

Confrontação. Em determinada altura, podem surgir confrontos entre dois ou mais participantes, ou entre segmentos do grupo, por vezes de forma não pacífica. Confrontos que podem ser espontâneos e de resolução imediata ou resultado de processos mais elaborados e de resolução mais retardada.

Os confrontos, normalmente oriundos do choque de personalidades, podem assumir dimensões significativas que, se não forem dirimidas no contexto apropriado, resultarão em sentimentos de desconforto para aqueles que se sentiram atingidos.

Relações de ajuda extra sessões do grupo. Esta é uma situação que ocorre com alguma frequência em grupos de desenvolvimento. Com efeito, quer no interior do grupo, quer fora dele nos intervalos, há por vezes participantes que procuram ajuda e outros que se disponibilizam a dá-la.

Esta entreajuda pode dizer respeito à manifestação de apoio por uma situação anteriormente vivida ou durante o processo grupal, ou ainda ao desejo de querer ajudar outro participante na resolução de algum aspecto da sua vida pessoal.

O encontro básico. O encontro básico é apontado pela Abordagem Centrada na Pessoa como referindo-se à intensidade e profundidade da relação humana. Diz respeito a uma íntima e directa ligação entre as pessoas que se encontram em contexto relacional.

Assim, quando os sentimentos são profunda e sinceramente expressos entre as pessoas ocorre uma mudança significativa no contexto dessa relação, mudança que as pode levar ao seu pleno desenvolvimento.

Expressão de sentimentos positivos e intimidade. Com o decorrer do tempo estabelece-se entre os participantes do grupo um sentimento de calor humano, um espírito de grupo e a confiança que lhes permite manifestar não só atitudes positivas, como também sentimentos verdadeiros, quer eles radiquem em aspectos positivos ou negativos da convivência e da relação grupal.

Mudança de comportamentos no grupo. As mudanças comportamentais ocorridas durante e depois da acção de formação grupal podem ser muitas – normalmente positivas para os seus participantes.

Mas nem sempre assim acontece. Por um lado, as mudanças comportamentais podem ser passageiras, por outro, estas podem implicar às vezes problemas para os quais os indivíduos não estavam à partida preparados.

Um outro problema pode consistir no aparecimento de transformações entre um sujeito que fez parte de um grupo de desenvolvimento e uma outra pessoa que lhe está afectivamente perto mas não passou pela mesma experiência.

Outra situação é as consequências advindas da aproximação íntima entre dois indivíduos que se relacionaram intensivamente no decorrer do processo grupal, reconfigurando os indivíduos as suas vidas com base na experiência que tiveram em conjunto nesse processo.

Finalmente, outra situação que pode tornar-se negativa diz respeito àquilo que Rogers apelida de velho profissional, e refere-se aos indivíduos que se tornaram veteranos neste tipo de acções de formação, os quais podem exercer uma acção negativa sobre os novos participantes.

Trata-se da tentativa destas pessoas exercerem influência sobre os novos participantes, relativamente à forma como se expressam, às formas de ser e de estar, ou aos conteúdos daquilo que expressam ou deixam de expressar.

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