Mãos À Obra

Mãos à obra

Na era do “capital intelectual”, uma ode ao trabalho manual!

Minha mulher começou a fazer aulas de artesanato e anda entusiasmada como nunca. Fala empolgada das técnicas e dos materiais existentes, reporta as dificuldades que enfrenta em seus pormenores e mostra com orgulho o que já produziu. Uma satisfação que jamais percebi no tempo em que trabalhou como atuária em seguradoras, nem quando passou a atuar como analista de mercado e consultora de atendimento, mais recentemente.

Fosse em outro momento, talvez eu desse um desconto para tanta felicidade, atribuindo-a ao fator novidade. Depois de ter lido um artigo do americano Mathew Crawford, nem tanto.

Em 2006, Crawford, um sujeito com pós-doutorado, publicou artigo no qual defendia a importância do trabalho manual para a satisfação pessoal. Baseava-se na própria experiência: havia largado o emprego num think tank na capital dos EUA para abrir uma oficina de motocicletas antigas. Descobriu, com a nova atividade, um contentamento que jamais havia experimentado quando dedicado exclusivamente às atividades intelectuais. Escreveu ele:

“A satisfação de manifestar-se de maneira concreta através das habilidades manuais tornam o homem sossegado e tranquilo. Ela parece aliviá-lo da necessidade de oferecer interpretações sobre si mesmo a fim de reivindicar o próprio valor. Ele pode simplesmente apontar: o prédio está de pé, o carro funciona, as luzes estão ligadas. A perícia profissional tem de contar com o infalível julgamento da realidade.”

De fato, fala-se muito em “sociedade do conhecimento” e em “capital intelectual”, mas em nenhum momento se considera que isso tenha a ver com atividades eminentemente práticas. Pensa-se sempre em ideias, pesquisas, insights…Porém, a separação entre trabalho intelectual e manual talvez nem exista, não ao menos da forma como a concebemos. Crawford lembra que, na sua oficina, alguns problemas apresentam “tantas variáveis” que acabam por exigir, sim, muito raciocínio; “há muito mais ‘penso’ na oficina do que em um think tank”, conclui.

Alex Periscinoto, reconhecido publicitário brasileiro, tinha uma oficina, em casa, na qual esculpia patos e cavalos em madeira. Paulinho da Viola tem uma marcenaria na sua residência, na qual lida com madeira e faz pequenos consertos. Carlos Ribeiro, ex-CEO da HP no Brasil, hoje se dedica a fabricar violões artesanalmente. Atividades secundárias, menos importantes? Nem tanto. Para uns, funciona como terapia; para outro, como a verdadeira fonte de significado no trabalho, aquela que a atividade principal, exclusivamente “cerebrina”, não conseguiu oferecer.

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