O Macaco E O Baixo

O Macaco E O Baixo

Em 1975 um conjunto chamado “10 CC” lançou uma música com grande sucesso :
“I’m not in Love”. No arranjo chamava atenção o baixo. Ele era o instrumento mais importante. Era algo diferente, instigante até. Lembro-me de ver meu amigo Chiquinho com outros músicos estudando o arranjo e vibrando com o baixo. Mas um dia o Chico apareceu indignado. Contou que estava conversando com um conhecido músico sobre a tal música, quando o cara disse:

– A música é legal. O que estraga é aquele baixo…

“Onde já se viu? ” disse o Chico. “O baixo era a alma da música e aquele
idiota não percebeu!” E o Chico foi embora resmungando… Fiquei com aquilo na cabeça. Um músico que não conseguia perceber um detalhe que fazia toda a diferença. Ou será que ele apenas não entendeu? O fato é que o detalhe principal foi deixado de lado pelo profissional.

Tempos depois, quando eu era diretor de arte aprendi uma historinha famosa no meio publicitário : a do criativo que bolou uma propaganda muito boa, que tinha como peça principal aquela cena dramática em que King Kong está sobre o Empire State Building em Nova Iorque, sendo atacado por meia dúzia de aviões. Ao apresentar a propaganda para o cliente ele ouve o seguinte:

– Excelente! Ótimo! Mas vou pedir uma mudancinha. Tire o macaco.

Você já passou por isso, hein? Ver o detalhe fundamental ser esquecido, não
compreendido ou simplesmente ignorado por um míope profissional?

Pois estou vendo isso acontecer outra vez. Falei com alguns amigos que trabalham em grandes empresas. Perguntei como estavam as coisas e eles
disseram que este foi um ano excelente para os negócios, mas que estava terminando de maneira melancólica. Estão cortando o cafezinho, fechando os departamentos de marketing, parando com os eventos, cortando os bônus e até as doações para creches. E as comemorações de final de ano dançaram!

– Poxa, mas nem um jantarzinho?

– Não! É a crise!

Veja só: as empresas têm um ano fantástico e estragam tudo no final, criando um clima de terror. O que deveria ser uma celebração pelos bons resultados vira tristeza. E a equipe que foi motivada a “dar o melhor de si”, “superar as expectativas” e “performar”, termina o ano broxada, com gosto de derrota na boca. Mesmo que as metas tenham sido atingidas ou até ultrapassadas.

Em nome da “crise que vem aí” fica proibido celebrar as vitórias.

Burrice.

Celebrações cumprem um papel fundamental para as equipes e pessoas. São
quando as pessoas percebem que fazem parte de um time ganhador. É quando mostramos que nossos planos estão dando certo. É quando calamos a boca dos urubus que jogam contra. É quando estreitamos laços. As celebrações das vitórias, pequenas ou grandes, são multiplicadores, momentos que ficam
gravados. O bônus vai passar. O salário será gasto. Mas a emoção daquela celebração autêntica, respeitosa e bem feita nunca mais será esquecida.

Mas isso é pedir demais para os míopes profissionais, não é? Para eles o macaco, o baixo e festinhas são bobagens. Despesas.

Sabe que nome dou para essas decisões de pequenos executivos que administram suas empresas como contadores, jamais como líderes?

Miopia empresarial.

Ah, na sua empresa não é assim? Sorte sua. Você faz parte de uma minoria que ainda consegue enxergar longe. Aproveite, viu? Do jeito que as coisas estão, logo logo aparece uma cabecinha pra acabar com a festinha, o macaco e o baixo.

E só restarão as planilhas.

Luciano Pires é jornalista, escritor, conferencista e cartunista.

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