Os Economistas Dos Sentimentos

O nosso verdadeiro valor vem não daquilo que temos, mas sim daquilo que somos. (Lair Ribeiro)

A contenção das emoções pode representar bom equilíbrio entre o emocional e o racional. Porém, o exagero evita a sensibilização humana e provoca prejuízos, tanto em nossas relações pessoais quanto profissionais.

Caro leitor, você já observou como economizamos sentimentos? E, se não prestarmos atenção, agimos assim desde crianças. Luciana é uma linda menina de cinco anos de idade. Ao ouvir “bom dia”, por exemplo, não responde, apenas acena com a mão. Sempre pergunto a ela “por que você não responde ‘bom dia’?”. E ela diz: “Porque eu aceno!”. Não filhinha, além de acenar, fale “bom dia”. Você tem a voz. Não precisa economizar voz. Acene, olhe para a pessoa e fale…. E lá sigo eu, todo dia corrigindo este hábito da pequena menina.

Estas atitudes “econômicas”, no que dizem respeito aos sentimentos, causam graves prejuízos na nossa vida profissional. O atendimento no comércio, via de regra, costuma ser muito medíocre. Raros são os lugares e raras são as pessoas que têm atitude voltada para o outro e que sabem expressar seus sentimentos. Pois, novamente, não basta tê-los. Na vida, é necessário saber manifestá-los.

Outro dia, fazendo compras numa loja, precisei caçar o vendedor, que preocupado com o computador tinha seu foco voltado para a telinha do monitor. Perguntei sobre um produto e ele, sem tirar os olhos do computador, disse “hann?”. Pelo que observei, estava fazendo um “search”, no “sistema”, para ver se o que eu havia solicitado tinha no estoque. Tudo isso, sem tirar os olhos da telinha. Alguns segundos depois, respondeu: “Está em falta.” E, sem cerimônias, continuou focado na telinha. Olhei para outros atendentes e incrível, estavam todos focados em algum outro serviço!

Pensei em fazer alguma pergunta, mas, indignado pela falta de atenção, fui saindo, sem que ninguém me dissesse muito obrigado, volte sempre ou qualquer outro tipo de saudação. Que loucura! E são todos comissionados!

A economia dos sentimentos pode ser observada nos negócios e na vida em geral. Mas a maior de todas as ironias é quando sentimos o desespero da partida sem volta, do fim da vida. Quando observamos as reações das pessoas, num velório, por exemplo. No mês passado fui ao funeral de um amigo. Registrei que nas três horas que antecederam o enterro, os filhos deste amigo ficaram o tempo todo, sem exceção, agarrados às mãos do pai falecido. Acarinhavam aquelas mãos, sem largá-las, enquanto, mudos, transpareciam a dor. Até então, nunca havia presenciado um beijo, um carinho, um abraço profundo e gostoso entre eles. Os conhecia razoavelmente bem.

Não que não se gostassem. Havia relação de respeito, amizade e amor entre os pais e os filhos. Mas, como achamos que o tempo e nós mesmos somos eternos, economizamos os sentimentos. Imagine só o quanto aqueles filhos não estariam arrependidos por não terem ao menos alguns minutos por dia, abraçado e acarinhando as mãos do pai. E, claro, vice-versa também.

A contenção da exteriorização dos sentimentos pode fazer parte de um bom equilíbrio entre o emocional e o racional. Porém, o exagero dessa contenção evita a sensibilização humana e provoca prejuízos, não apenas nas nossas relações com amigos e pessoas queridas, mas, também, nos negócios e nas nossas carreiras.

Na dúvida, não economize sentimentos. Gaste-os. A colheita virá um dia, plena de bons e gostosos sentimentos. A não-demonstração do sentimento é uma das maiores punições que podemos causar à outra pessoa. Reflita sobre isso e bote para fora os bons sentimentos, pois, sem saber, podemos estar nos autopunindo exageradamente.

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