Paixão, Carreira e Sucesso

Naturalmente, estamos inclinados a conseguir o melhor. Nosso empenho, assim como nosso desejo, costuma ocorrer em termos máximos. Talvez tenhamos problemas com a duração, a direção e a intensidade destes esforços, como trocar os pés pelas mãos, vez ou outra; no entanto, nada que inviabilize as tentativas. Aliás, o fato é que, quase sempre, o lado negro da força não é causado pelas trevas da “falta de motivação” e sim, por outras configurações.

Em uma disposição regular de caráter, nada parece impedir nosso rumo a um objetivo, exceto se estivermos impossibilitados de nos movimentar, seja pelo risco envolvido ou pela falta de condições instrumentais. O psicológico só entra em ‘parafuso’ quando já se debateu muito contra o meio ambiente hostil. A prática das organizações gera muitas invisibilidades.

Nestas topografias, ecoam hábeis palavras que solicitam mudanças e acenam com um futuro. Só que costuma haver, mais freqüentemente, o contrário: nestes cenários, os que têm maior garra, perspicácia, velocidade e empreendedorismo parecem sempre ser “freados” em suas iniciativas, controlados baixo uma ordem de discursos, processos ou práticas. Às vezes isto é prudente, mas na maioria das ocasiões, não.

Convenhamos que o quadro conjuntural em que nos encontramos exige mais do que permite o atual ceticismo. Mas, isto é outro assunto e o veremos depois. Agora, sempre é hora, quero dizer: não existem impossibilidades comprovadas a priori, nem mesmo em situações as quais não dominemos completamente as ferramentas, os processos ou os saberes. A programação original traz em suas linhas de código, duas ordens claras ao sistema: busque 100% em tudo! Tente novamente!

Exemplos: quem é que, quando garoto, não tentou alcançar aquela bola improvável e acabou marcando um gol de placa? Jovem, foi conversar com a princesa inatingível e terminou namorando firme? Adulto, empenhou num projeto todo seu potencial, não porque o chefe ou o consultor recomendaram com aquele lenga-lenga sobre vantagem competitiva. Mas, porque o correto seria daquela forma, queria-se fazer o excelente (em outras palavras, o racional 360º) e de outra maneira não seria aceitável!

Lembra de como começou a andar? Você viu alguém chamando e foi em sua direção. Caiu, levantou e uma hora já estava dominando o fazer. Quantas vezes não atingimos o “sucesso”, pelo simples motivo de nos encontrarmos unidos a uma única e sólida disposição realizadora, mesmo enfrentando toda uma complementaridade dissociada de nós: a organização, as tarefas, as metas, as normas, os outros.

Tudo fez parte, em algum momento, de alguma estratégia para a consecução dos objetivos? Não! Tudo estava de acordo com nossas possibilidades e conforme a visão de conjunto. Como atingimos este patamar? Bom, em primeiro lugar: iniciativa, qualificação e sensibilidade. Depois, não é um lugar, um espaço de provas, e sim um tempo. E no tempo, uma configuração de condições, cuja causa é o fluxo de interação entre corpo, consciência, mundo e realidade. Seja qual for a situação, se estivermos ali por inteiro, podemos obter excelência a priori e desempenho contínuo. O ser se diz de muitos modos, no entanto, o fator humano para ser estratégico deve dar-se por inteiro. Daqui podemos extrair uma terceira lei de nossa robótica, agora, de cunho ético: faça melhor da próxima vez.

Atuando de forma integral, ultrapassamos expectativas e concretizamos realizações. Os dispositivos e as crenças que empregamos são aliados, e não resistentes à ação. Este é o modo ontológico, em que a lacuna que nos falta para a expertise é preenchida pelo aprendizado, junto ao processo que se desenrola e no qual estamos imersos. Tornamo-nos o que somos, porque nos fazemos assim ao ir de encontro a este direcionamento.

Ocorre que estas situações somente se dão, caso estejamos apaixonados pelo que fazemos. Isto não se põe num contrato. É uma visão-percepção que orienta os nossos passos, pensamentos, habilidades e sentimentos. É a simpatia total com o objeto de nossas atenções, em uma palavra: é o que os compêndios gastam centenas de páginas para dizer e nós o fazemos num instante. Como já disseram: nada de grande se faz sem uma dose de paixão. Um privilégio da primeira pessoa.

Eu sou esta fração que se agiganta, quando integrada ao espetáculo da vida e as organizações são apenas uma instância desta condição. Elas não estão lá para vivermos ou justificarjmos nossa existência, e sim vivemos para que – estando lá – consigamos empreender as soluções necessárias.

Estamos no alvorecer de uma nova época das relações, onde a lei não poderá ser ditada pela “crueza” auto-reguladora dos “mercados”, mas, balizada integralmente na justiça das transações. Sem revisar os encadeamentos produtivos em suas cadeias de especificidades, o risco do desastre estará consumado. Para escapar pela tangente, sem desestabilizar ou gerar pânico, é necessário uma translação conceitual, de modo a permitir que todas as intermediações estejam eticamente validadas. Vamos precisar, realmente.

Como assim? Isto mesmo! Todos são responsáveis por todas as fases da configuração e devem responder solidariamente por ela. Desde a extração do insumo, da commodity até o produto final, passando por suas transformações, usos e reusos. A cada etapa de manipulação, movimentação ou apropriação deveremos responder a uma pergunta e oferecer também uma garantia. O processo possui certificação 360º? Em outras palavras, ele é sustentável em todas as instâncias ou causou dano ao ambiente, aos que o produziram, consumiram, enfim, a qualquer cidadão ou comunidade?

O lucro destas operações é resultante da otimização de processos e novas tecnologias, da gestão correta aliada ao planejamento estratégico ou da redução irresponsável da qualidade, vida útil ou segurança? Carreiras estáveis serão aquelas que mapearem estas respostas, oferecerem e empreenderem as soluções diversificadas para o amanhã, pois todos os postos de comando aguardam por este tipo de líderes.    Luis Sérgio Lico

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