Por quem você se apaixonou?

Pessoa Irresistível

Lembrei-me de uma história que aconteceu há muitos anos. Não tantos que eu não conseguisse recordar, mas anos suficientes para ter se tornado uma história.
Ao final do meu primeiro casamento, conheci uma pessoa. Era uma época muito tumultuada. Eu trabalhava doze, quatorze horas por dia. Viajava o tempo todo. Morava praticamente num hotel e minha mala era o meu guarda-roupa. Meu celular tocava vinte, trinta vezes por dia e era sempre algo importante. Naquele período, eu tinha muita coisa pra fazer e um emprego de grande responsabilidade. Meu ritmo era frenético. Preparava um lançamento importante e tudo tinha que dar certo. Era a prova final da minha competência e brilhantismo.
O lançamento aconteceu e foi um sucesso. Naquela noite, em que sai pra comemorar, eu o conheci.
Ele era interessante, inteligente, fazia-me rir e dançava super bem. Eu me sentia viva. A alegria parecia ter voltado ao meu corpo. O apetite também. Eu experimentei novos sabores, ousei conhecer novos lugares, tomei coragem pra me separar e me apaixonei.
Simples assim. Todas as minhas células pareciam vivas. Eu ria novamente. Comecei a fazer planos, a resolver as pendências, a dar importância ao que realmente era importante. E tudo isso alimentado e nutrido por este amor, essa conexão. Sim, porque nos falávamos todos os dias, várias vezes. E quando nos encontrávamos, éramos o melhor de cada um. Inteiros e presentes. Conseguíamos separar conscientemente todas as preocupações, problemas e coisas a fazer, para estarmos apenas juntos, rindo, conectados. Era um amor real. Eu podia sentir isso. Eu podia sentir com todas as minhas células que já conhecia este amor. Era como se ele me completasse. Como uma parte essencial de mim.
Havia apenas um pequeno detalhe. Talvez uma menor parte dentro de mim que sabia que havia um segredo. Um detalhe fundamental. Quase como uma sensação sinistra de que algo não se encaixava. Mas estava tudo tão bom, tão gostoso, tão divertido que eu apenas mergulhei nesse amor e quase me afoguei nele.
Foram cinco meses de profunda conexão, entrega e presença e, num certo dia… PUF!…acabou. Não me lembro exatamente como começou a acabar ou como terminou de acabar. Mas eu posso me lembrar agora da sensação de senti-lo se afastando. Indo, partindo. Reuniões importantes, preocupações, muito trabalho, cansaço, silêncio. E lá estava eu de novo. Sozinha. Era um buraco. Um vazio. E eu me fechei novamente. Abaixei-me, encolhi-me, deixei que tudo passasse e permaneci em silêncio. Quieta, imóvel, congelada.
Quinze anos se passaram. Eu cresci e me apaixonei de novo, casei-me, tive filhos. Mas aquela lembrança de vida permanecia lá. Fechada, esquecida, adormecida. Até hoje.
Pela manhã, observando os beija-flores, clássico símbolo da alegria, após dias e dias de reflexões e convites delicados àquelas partes há muito deixadas de lado, eu entendi. Finalmente, eu entendi. E pude sentir em todo meu corpo aquele frisson novamente. Da vida, da paixão, da alegria, com uma energia intensa que percorre todo meu ser trazendo consciência e êxtase.
E, no instante seguinte, lembrei-me dessa história e compreendi. Eu nunca amei aquele homem. Eu estivera profunda e completamente apaixonada por mim. Eu apenas tinha me lembrado disso. De estar total e completamente presente, inteira e disponível para mim. Amando todas as minhas partes que somadas se tornaram uma só.               Nathalie Favaron

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *