Preguiçosos Podem Fazer A Diferença Nas Empresas

Os CNPJs precisam cuidar melhor de seus RGs e CPFs. Perdidas em meio à pressão por resultados e programas de gestão que potencializam o ganho operacional e o lucro, as empresas estão negligenciando o lado humano da organização. Com isso, criam ambientes de trabalho onde o respeito ao indivíduo não é a norma e, automaticamente, legitimam a falta de respeito aos seus próprios clientes ou consumidores finais.

Essa é uma das teses do livro “Contrate Preguiçosos”, do consultor Eduardo Cupaiolo, sócio-diretor da PeopleSide, empresa especializada em desenvolver o lado “humano” das organizações. Lançado na semana passada pela Editora Mundo Cristão, o livro reúne 34 artigos distribuídos pela newsletter eletrônica da empresa, que conta com 2,5 mil assinantes no Brasil, Estados Unidos, Portugal e alguns países da América do Sul. Acostumado a implementar programas de treinamento de equipes em companhias como Nestlé, Bradesco e Itaú, Cupaiolo diz que está preocupado com a forma como as corporações têm negligenciado o indivíduo. “Estamos num momento interessante: as empresas já notaram que o jeito que elas fazem as coisas não é o melhor”, afirma. “O principal problema é a ignorância e a displicência com que a organização está tratando o ser humano, seja uma empresa, um hospital ou uma igreja. Há uma negligência nesse sentido, com os de dentro e, conseqüentemente, os de fora”. O resultado desse pouco caso é a falta de comprometimento dos funcionários com a própria visão da corporação.

Segundo o consultor, uma pesquisa do Instituto Gallup, citada em edição recente da Harvard Business Review, mostra que 71% dos profissionais consultados não se sentem realmente comprometidos com suas organizações. Essas empresas podem estar sofrendo da doença que o jornalista americano Thomas Friedman denominou em seu livro “O Lexus e a Oliveira” (Ed. Objetiva) de “deficiência imunológica ao microchip”, ou MIDS. Trata-se de uma incapacidade de se adaptar aos processos de democratização da tecnologia, das finanças e da informação, num mundo totalmente globalizado. Ambiente profissional que gosta de concentrar as decisões e informações vitais na cúpula e precisa, para ser curado, passar pelo que Friedman chamou de “quarta democratização”, ou o compartilhar do conhecimento e dos fluxos de informação. Embora haja um crescimento dos programas de qualidade de vida para os funcionários, uma preocupação maior com as mulheres grávidas e com a responsabilidade social, o movimento ainda é incipiente.

“Quando se fala de tratar as pessoas como gente, todo mundo acha que isso quer dizer ir alugar caiaque em Porto Seguro. Ir para Porto Seguro não vai resolver o problema. O que a gente está propondo é uma alternativa viável que não passa necessariamente por abandonar tudo e ir embora, mas em fazer as coisas de um jeito diferente dentro do próprio ambiente de trabalho”.

Esse pensar diferente também é uma das idéias contidas no artigo que dá nome ao livro. Quando propõe que as empresas precisam de preguiçosos, Cupaiolo está defendendo aqueles profissionais que não aceitam fazer as coisas burocraticamente. “É o tipo de preguiça que estimula as pessoas a tentar fazer algo com menos esforço, de uma maneira melhor e com mais excelência. As grandes soluções tanto no campo das invenções mecânicas quanto nos modelos de gestão e nas questões relacionais vieram de pessoas que se incomodavam em fazer tudo sempre da mesma forma e do jeito mais difícil, às vezes mais cansativo”, ilustra o autor. Para Cupaiolo, o inventor da escada rolante é um bom exemplo de preguiçoso com o qual as empresas deveriam sonhar. Para cultivar esses bons modelos de relacionamento interno, a PeopleSide desenvolve treinamentos mais longos que os cursos de gestão convencionais. Em geral, programas de 16 horas, que poderiam ser ministrados em dois dias, aqui são estendidos para quatro horas semanais, o que na prática vira um mês de aula. “Com menos informação em cada fase, as pessoas têm mais tempo de refletir e aplicar aquilo que recebeu. O objetivo é sempre melhorar o relacionamento entre indivíduos”.

Um dos capítulos sugere, por exemplo, que um novo contratado deve ser cuidado como uma mãe trata o bebê que acabou de nascer “com cara de joelho”. Quer dizer, em resumo, ser paciente e dar ao sujeito um tempo para absorver a cultura da empresa e não cobrar dele um desempenho de “adulto” quando na verdade ele apenas acabou de nascer.

O consultor explica que isso não significa ser complacente ou de não cobrar resultados e metas. Mas de exercer um pouco mais de tolerância com os novatos. Restou perguntar, afinal, por que alguém contrataria uma empresa para ensinar conceitos que soam tão óbvios, como o do respeitar para ser respeitado? Cupaiolo garante que muitas verdades óbvias como essa têm sido invariavelmente esquecidas no dia-a-dia competitivo das corporações. “Errou tá morto. Em geral, esta é a regra”, afirma. Para ele, a responsabilidade de contagiar positivamente o ambiente de trabalho é da liderança. Os bons exemplos de relacionamento em geral são copiados. “Somos seres mimetistas, macaco vê, macaco faz. Aprendemos vendo os outros fazerem. Quem dá a demanda e quem gera o clima organizacional é a liderança hierárquica, pois a ela foi dado o poder.

O Peter Drucker fala isso, as pessoas não abandonam suas empresas, abandonam seus chefes. Se você tratar mal o seu funcionário, ele não vai tratar bem o seu cliente. Se você trata as pessoas feito lixo como pode pedir para as pessoas atenderem bem os seus clientes? Temos que quebrar esse círculo vicioso.”

Marília de Camargo Cesar, Valor Online

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