Procuram-se Executivos

A economia reage, as contratações aumentam e as empresas voltam a procurar por profissionais qualificados

A engenheira industrial Maria del Pilar Guardia, de 34 anos, de São Paulo, trabalhou durante dez anos na Ford. Nos últimos tempos comandou um time de 70 pessoas da área de qualidade da companhia. Saiu de lá no começo deste ano com destino certo: a gerência corporativa de qualidade da São Paulo Alpargatas. Desta vez, para liderar cerca de 80 funcionários espalhados por oito fábricas. “Tive um aumento de salário bastante razoável”, diz Pilar, preferindo não revelar quanto sua remuneração cresceu. A executiva cavou uma vaga que até então nem existia no organograma da Alpargatas. A posição foi criada pela demanda cada vez maior por certificações e selos de qualidade. “O mercado de trabalho está bem melhor do que há três anos. Há boas oportunidades para quem tem uma carreira planejada”, diz.

Pilar não é a única executiva que conseguiu boa colocação. Nos últimos meses, o mercado de trabalho voltou a ficar agitado para líderes de níveis médio e alto. Até a dança das cadeiras, que estava congelada desde o final do ano passado, voltou com força. Os profissionais estão circulando mais dentro das empresas. A explicação para essa animação vem da economia nacional, que está reagindo depois da letargia, pois muitos empresários suspenderam investimentos na cadeia produtiva. As empresas aumentaram a produção e estão contratando operadores de máquinas, pedreiros e técnicos. Para comandar essa turma, mais executivos — embora, como reza a lógica dos organogramas, a quantidade seja bem menor do que a de operários. Os números do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho, mostram que de janeiro a maio deste ano foram criados 826,7 mil empregos qualificados e não qualificados com carteira assinada. Em São Paulo foram 337 000 vagas. No Paraná, 82 000 e no Amazonas, 10 000. Além disso, todas as 14 regiões pesquisadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicaram crescimento industrial no primeiro semestre. Destaque para as indústrias de bens de capital (máquinas e equipamentos industriais) e as de bens duráveis (eletrodomésticos, por exemplo). “As empresas estão revendo sua estratégia e desengavetando projetos que estavam parados”, afirma Marcia Hasche, diretora da consultoria Valor Pessoal, de São Paulo.

Dentro das empresas, os setores que mais se destacam são as áreas de qualidade (responsável por processos de certificação), recursos humanos, vendas e comércio exterior — todas estratégicas. “Até os bancos, que demitiram muita gente nos últimos tempos, voltaram a contratar”, diz Marcelo de Lucca, diretor da divisão de finanças da Michael Page, consultoria especializada em recrutar profissionais de nível gerencial. “As empresas recomeçaram a trabalhar num cenário de longo prazo”. De acordo com levantamento da Laerte Cordeiro Consultores, de São Paulo, os executivos mais procurados ao longo do primeiro semestre eram de marketing, vendas, finanças e tecnologia da informação.

Há 18 anos, a Laerte Cordeiro faz um levantamento mensal junto à seção de anúncios dos principais jornais de São Paulo. Mesmo que esse não seja mais o principal veículo de oferta de vagas, os jornais continuam a refletir de certa forma os movimentos do mercado. No primeiro semestre deste ano foram oferecidas nas seções 794 vagas para diretores, gerentes médios e seniores, o que representa um aumento de 31% em relação às ofertas do ano passado. A pesquisa mostra que, em média, foram publicados 30 anúncios de empregos para executivos por semana, ante 23 em 2003. “Se a economia continuar do jeito que está, o segundo semestre poderá ser ainda melhor que o primeiro”, diz Laerte Cordeiro. Apesar deste ano estar mais aquecido do que 2003, a quantidade de vagas no primeiro semestre não foi nem sombra do que era três ou quatro anos atrás. Nos primeiros seis meses de 2000, por exemplo, as empresas procuraram 1 373 gerentes e diretores. “De qualquer maneira, as ofertas de emprego estão voltando”, afirma Cordeiro.

Outra pesquisa que reforça essa tese foi feita pela Korn/Ferry, empresa de recrutamento de executivos, no final de 2003. O estudo CEO Vision ouviu 212 altos executivos de toda América Latina. Dos entrevistados, 41% pretendiam contratar mais nos próximos dois anos. “A retomada começou tímida, mas está se intensificando, inclusive para cargos de diretoria”, afirma o consultor sênior da Korn/Ferry Rodrigo Araújo, especialista na área industrial e de tecnologia. Araújo explica que muitas empresas estão buscando executivos depois de alguns anos demitindo mais gente do que contratando.

É bom que se diga que o que se vive hoje não é exatamente um carnaval de oferta de empregos. As empresas não estão contratando gente simplesmente por contratar. “Ninguém vai inchar sua estrutura gerencial ou de diretoria”, afirma o headhunter Ricardo Rocco, da Russell Reynolds. O que há é uma procura mais intensa por bons profissionais. Além disso, os consultores de carreira não arriscam dizer quanto tempo essa procura vai durar, mas certamente estamos vivendo uma retomada das contratações. Você não deve pedir demissão hoje achando que amanhã será contratado para um cargo melhor. Também não fique de braços cruzados. Cheque quem está contratando e veja se as vagas se encaixam no seu perfil e na sua expectativa profissional.

Para Surfar Nessa Onda

O que fazer para aproveitar as oportunidades

* Intensifique o networking

* Reforce sua presença junto aos recrutadores

* Mande seu currículo para as empresas onde você quer trabalhar

* Não fique no anonimato: dê aulas em faculdade, escreva artigos em revistas do seu segmento, filie-se a uma associação, vá a congressos

* Fique de olho nos setores que crescem

Fonte: especialistas em carreira

Vai Contratar?

Pesquisa feita pela empresa de executive search Korn/Ferry com executivos da América Latina mostra os planos de contratação das companhias. Confira:

2% Planeja contratar

23% Vai manter o número atual de executivos

41% Vai contratar menos executivos

34% Não respondeu

Fonte: Korn/Ferry International – Anne Dias

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