Professor-Líder: Muito Além De Palavras E Números

Falar do professor é assunto que não se esgota. É sobre ele e para ele que o olhar se volta ao se refletir sobre educação. Um olhar sobre a prática, o fazer, o pensar educativo, sobre a condição e a identidade desse profissional. Quanto mais nos aproximamos do cotidiano escolar, mais nos convencemos de que a escola gira em torno dos professores. São eles que fazem e reinventam. São eles os protagonistas em plena ação. São eles regente e maestro. São eles que devem incorporar o verdadeiro papel da liderança.

Desafios do educador

Mas como conciliar tão importante papel, quando, na verdade, vivemos um momento tenso, repleto de dúvidas muito mais do que de certezas? Quando a mudança de postura do professor é inevitável e reconhecida mas, ao mesmo tempo, fonte de insegurança? Quando também se percebe sua imagem desfigurada, como um velho e apagado retrato de família – uma imagem distorcida daquilo que realmente representa? São muitas as situações adversas para a função do educador. Inúmeros os desafios, constantes as cobranças. E não há, nesta abordagem, a pretensão de acabar com as dúvidas, de trazer certezas. Ir atrás de certezas mataria a riqueza pedagógica. Pretende-se, menos ainda, dar respostas ou receitas. O que se busca é uma reflexão acerca do verdadeiro papel do professor.

Esse papel é instigante, pois, como afirma Juan de Mairena, “a finalidade de nossa escola é ensinar a repensar o pensamento, a ‘des-saber’ o sabido e a duvidar de sua própria dúvida; esta é a única maneira de começar a acreditar em alguma coisa.” Assim, torna-se cada vez mais urgente a necessidade do professor de mobilizar o máximo de competências que permitam enfrentar a complexidade do mundo e as próprias contradições. É imprescindível aliar a competência técnica e a interpessoal em suas ações.

Transformação

Competência técnica é o know-how necessário para transformar as práticas pedagógicas, explicitando e confrontando pontos de vista, explorando coletivamente novas vias pedagógicas, mobilizando e desenvolvendo permanentemente novos saberes, entre os quais, os de inovação. Já a competência interpessoal é indispensável, principalmente na revisão de posturas diante da atual complexidade na qual a escola está inserida.

A escola é palco de tensões e conflitos. Canalizá-los é essencial para a formação de uma unidade produtiva na qual o espaço educativo transforma-se em espaço de confiança e de aprendizagem. Daí ser necessário optar pelo modelo de gestão participativa, com orientação para as relações humanas, na busca de situações de formação de sujeitos éticos, autônomos, responsáveis e solidários, capazes de ver, na incerteza, uma possibilidade. Assim, a competência interpessoal deixa de ser intenção filosófica e se torna uma possibilidade pedagógica, e a especificidade do saber docente ultrapassa a formação acadêmica, abarcando a prática cotidiana e a experiência vivida.

Essas duas competências, aliadas, estimulam a apuração dos meios de análise e ajudam a tomada de decisões, ampliando o leque de soluções viáveis e permitindo uma melhor reação às incertezas e o aprendizado para gerir, de forma mais eficaz, a complexidade da função de educador. A evolução da educação/escola depende, sobretudo, dos seus profissionais. É, portanto, necessário construir novos horizontes, o que significa transformar o discurso em atitudes concretas. O professor precisa tomar as rédeas desse processo, pois, qualquer que seja a disciplina que lecione, ele transmite, simultaneamente, a sua filosofia de vida. Também é importante que haja atualização e desenvolvimento constantes, feitos com espírito crítico, levando em conta o que é relevante para os alunos e para si próprio.

O professor torna-se, assim, essencialmente um líder, aquele que conduz porque aponta caminhos e porque gera confiança. Aquele que promove, no exercício do seu trabalho, o conhecimento inovador, que tem solidez teórica e é capaz de transformar as práticas, superando o mero fazer. Esse líder surge por intermédio do empenho profissional e do desenvolvimento das competências interpessoais, estabelecendo uma mediação democrática. A liderança que assim exerce, ao invés de baseada na legalidade da posição do professor, decorre de sua legitimidade. Fica ligada aos papéis inerentes ao exercício da docência e se expressa em situações nas quais a competência do professor o credencia como aquele que melhor articula o processo de construção do conhecimento, trazendo à baila o compromisso ético que deve ser o norte de toda a aprendizagem.

Cinco aspectos devem ser ressaltados na postura do educador:

1. Buscar o autoconhecimento

À medida que olha para dentro de si, reconheça os próprios sentimentos e desenvolva novas habilidades para lidar com eles. O professor-líder deve se perguntar: Quem sou eu? Onde estou? Onde quero chegar?

2. Desenvolver a automotivação

Fernando Pessoa melhor traduz esta necessidade: “Para ser grande, sê inteiro: nada / Teu exagera ou exclui. / Sê todo em cada coisa. Põe quanto és / No mínimo que fazes. / Assim em cada lago a lua toda / Brilha, porque alta vive.”

3. Ter foco na comunicação

O professor-líder prioriza a autenticidade, a serenidade e a coerência na sua comunicação, pois, assim, gera no aluno confiança, consideração e interesse.

4. Investir na formação de vínculos afetivos

Acreditando na pessoa e compreendendo seus limites individuais, o professor-líder recupera a afetividade na escola, não somente do afeto que consola, mas também do afeto que impulsiona porque aponta caminhos e reconstrói a esperança.

5. Praticar seu poder de ação

Quem apenas reage às situações não utiliza o seu poder de ação, e é ele que transforma a nossa vida.

Em O Grande Ditador, Charles Chaplin disse: “Pensamos demais e sentimos muito pouco. Mais do que inteligência, precisamos de bondade e compreensão”. A capacidade da liderança traz consigo essa possibilidade. O professor-líder é ainda aquele que acredita no poder do sonho – o sonho que livra da domesticação imposta pela rotina. Para isso, ele compromete as pessoas, e elas passarão a seguir o sonho, não mais o líder. Mônica Ferreira profissaomestre.com.br

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