Quais Setores Precisam De Ideias Inovadoras?

Em segmentos maduros, o pensamento inventivo gira em torno do modelo de negócios: a cadeia de valor e a forma de precificar. Um exemplo é a companhia aérea Southwest

Southwest: menos custos, mais mercados

Com o mundo saindo lentamente da pior crise financeira das últimas décadas, os líderes empresariais devem evitar a volta aos maus hábitos que a precederam. Um deles é a falta de atenção à inovação. A inovação, no velho modo de pensar, é necessária principalmente em tempos de crise ou talvez em mercados que estejam chegando à maturidade. No entanto, grandes reviravoltas podem acontecer a qualquer momento. Ninguém pode dar-se ao luxo de esperar por um sinal óbvio antes de começar a inovar. Por quê? Porque se você viu o sinal, provavelmente outra pessoa já aproveitou a nova oportunidade e deixou sua empresa para trás. Para sobreviver, as próprias companhias precisam se tornar forças de mudança. E a inovação é o meio de virar essa força.

A inovação é crítica para todos os setores. Não depende da maturidade do segmento. Isso porque nenhum ramo de atividade – em nenhum estágio de sua evolução – está imune a mudanças. As empresas que aceitam a inovação são mais ágeis e flexíveis que sua concorrência e têm maior capacidade de ajustar-se às condições dominantes no mercado para então capturarem uma fatia maior dos lucros.

Por exemplo, vejamos o mercado de telefones celulares. Há bem pouco tempo, muitos observadores entendiam que os aparelhos já haviam evoluído a um estágio “maduro”, e os principais concorrentes – Nokia, Motorola e Samsung – teriam de brigar entre si por fatias pequenas do mercado. Porém, o iPhone da Apple mudou as regras do jogo com inovações no modelo de negócios e na plataforma do produto. Em apenas três anos, o iPhone viria a obter mais lucros que o líder, mesmo com apenas 5% do mercado. O pensamento inventivo em segmentos maduros tipicamente gira em torno do modelo de negócios: a cadeia de valor e a forma de precificar.

A inovação também pode ter um papel relevante em mercados que, teoricamente, resistem a mudanças. Há empresas de commodities e matérias-primas – ramos com ênfase em baixo custo e grande escala, como no caso do cimento e do aço – que se diferenciam dos competidores por meio da inovação. Aconteceu no México, onde as inovações da fabricante de cimento Cemex aumentaram a demanda de consumo. Na Coreia, a siderúrgica Posco se beneficia de novas tecnologias na manufatura. Também existem algumas empresas no ramo pouquíssimo atraente do transporte aéreo que alcançaram lucros consideráveis. A Ryan Air e a Southwest recusaram-se a enfrentar concorrentes maiores com a abordagem tradicional de voos concentrados a partir de um nó central. A inovação ponto a ponto da Southwest diminuiu custos e abriu mercados de maneiras que as empresas tradicionais sequer haviam imaginado.

As companhias atuantes em segmentos com veloz crescimento não procuram ampliar sua fatia do mercado. Centram-se em expandir-se com a maior velocidade possível. Podemos ver essa realidade em redes sociais como Facebook, MySpace e Orkut. Para crescer rapidamente, precisam manter os esforços inovadores de modo a encontrar novas maneiras de ampliar clientes ao mesmo tempo em que oferecem experiências que assegurem a lealdade à marca. Você não pode depender do que fez ontem para permanecer na rota do crescimento rápido. Foi o que aconteceu com o Yahoo, cuja complacência enfraqueceu seu espaço dominante na internet – uma fraqueza que o Google soube explorar.

Se alguém quisesse escrever uma história da inovação na nova economia, poderia observar os formidáveis desenvolvimentos em energias alternativas, diagnósticos médicos e a nova geração do mundo digital chamada de “nuvem”. Esses mercados estão em ritmo de pioneirismo e os participantes precisam fazer experiências com o produto e com o mercado para encontrar o encaixe correto. A boa notícia é que empresas pioneiras são por si próprias atraentes a profissionais inovadores.

A recente crise financeira pode induzir a uma análise equivocada sobre a inovação. Há quem pense que a turbulência foi causada por excesso de novidades no setor financeiro. Não creio que tenha sido o caso. A inovação não foi a culpada: a falha se deveu a escolhas erradas, somadas a má gestão e negligência. O setor financeiro precisa inovar para que possamos continuar tendo mercados e instrumentos financeiros eficientes que ofereçam liquidez a quem pode criar valor e então pagar os empréstimos com uma taxa de retorno adequada.

Em uma economia que se está tornando mais global e interdependente, todos ganham ao aceitar o novo. Por exemplo, em finanças. Se a aversão global às recentes malversações financeiras tiver o efeito de resfriar os esforços inovadores na área, todos seremos prejudicados. Na sequência da recente recessão, todos precisamos que os mercados financeiros sejam seguros e, também, líquidos. Em outras palavras, precisamos de métodos diferentes para descobrir como ter as duas coisas. Segurança demais, tal como liberdade demais, não traz soluções que façam o mundo prosperar. Poderíamos raciocinar de forma semelhante em muitos outros setores: saúde, recursos hídricos, agricultura, transportes etc. A inovação é, no final das contas, uma prioridade global.

Hitendra Patel é diretor do Center for Innovation, Excellence and Leadership, em Cambridge (EUA), e autor do livro 101 Innovation Breakthroughs

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