Quando a Competição é Saudável?

Desde os primórdios da origem humana são registrados momentos de grande competição e que até hoje são lembrados como marcos históricos. Isso ocorreu quando o homem passou a delimitar território para garantir a sobrevivência e defender os seus pares dos ataques de outras tribos ou animais que representassem risco à vida. Aconteceu em fatos como na guerra que tornou “imortal o lendário” Cavalo de Tróia – registrado na batalha travada entre gregos e troianos.

Com o passar dos anos, o ser humano continuou competindo e isso não ficou restrito a apenas campos de batalhas. Como diria o naturalista inglês, nascido no início do século 19, Charles Darwin que ao estudar a origem das espécies no planeta Terra afirmou categoricamente “Sobrevivem os mais aptos”. Hoje, observa-se claramente uma disputa constante entre as organizações, que cada vez mais buscam superar a concorrência e garantir espaço em um mercado extremamente acirrado.

 

Mas, onde a competição está presente no meio organizacional? A resposta: no dia-a-dia e no relacionamento dos profissionais. Por essa razão muitas empresas quando analisam o clima organizacional abrem espaço para conhecer a realidade do relacionamento interpessoal, vivido pelos seus funcionários. Para preocupação de muitos dirigentes corporativos, entre os colaboradores nota-se a presença de uma competição onde vale a regra “puxar o tapete”, para conquistar cargos mais elevados ou apenas destacar-se dos demais. Por outro lado a competição não é obrigatoriamente negativa, como muitos pensam.

 

Para Maria Tereza Maldonado psicóloga e autora de mais de vinte livros sobre relacionamento humano e desenvolvimento pessoal, entre os quais “O Bom Conflito – Juntos Buscaremos a Solução”, lançado pela Integrare Editora, as organizações podem estimular a competição cooperadora que se manifesta quando as equipes estão motivadas a dar o melhor de si, promovendo o crescimento organizacional. No entanto, para que isso ocorra é necessário que exista um trabalho direcionado às equipes e que participação constante dos gestores de pessoas. Em entrevista concedida ao RH.com.br, Maria Tereza Maldonado apresenta o lado positivo da competição e dos conflitos. “É preciso estruturar a visão sistêmica: cada indivíduo, cada grupo, cada equipe, é parte de um todo para o qual contribui dando o melhor de si”, afirma a psicóloga. Esse tema certamente de grande interesse para quem pretende fazer com que suas equipes alcancem uma performance positiva. Confira a entrevista na íntegra e aproveite a leitura!

 

RH.COM.BR – O que podemos compreender por competição cooperadora no ambiente corporativo?

Maria Tereza Maldonado – A competição cooperadora acontece quando as equipes motivam-se para dar o melhor de si mesmas, com espírito competitivo, sem perder de vista os objetivos comuns a todos, ou seja, promover o crescimento da organização e a excelência de produtos ou serviços. E, para isso, é preciso estimular a cooperação.

 

RH – Em que momento a competição cooperadora deve ser estimulada na empresa?

Maria Tereza Maldonado – Em todos os momentos, porque essa visão deve formar a base da cultura organizacional: o espírito de competição cooperadora fortalece a empresa no mercado e pode existir também entre diversas empresas que, apesar de competirem no mercado, decidem trabalhar em cooperação para aprimorar produtos e serviços.

 

RH – Quais os benefícios que a competição cooperadora traz ao meio organizacional?

Maria Tereza Maldonado – Considera-se que a competição colaboradora é uma tendência de mudanças organizacionais neste século que pode trazer o benefício de fortalecer as empresas. Em um cenário de mudanças velozes, um imenso volume de conhecimentos e a necessidade de inovação, muitas empresas competidoras estão colaborando para desenvolver e aperfeiçoar produtos e serviços para melhor atender a demanda em nichos de mercado em que há lugar para todos. Isso tem acontecido, por exemplo, na indústria automobilística, de software e em muitas outras. Criou-se, inclusive, uma nova palavra para descrever essa tendência: “coopetição”.

 

RH – Quem está apto a conduzir o processo de competição cooperadora é apenas o gestor ou a área de RH deve participar desse trabalho?

Maria Tereza Maldonado – Na verdade, esse espírito, ao fazer parte da cultura organizacional, deve estar presente em todos os setores, e em todos os colaboradores.

 

RH – De que maneira a competição cooperadora deve ser apresentada aos funcionários, para que esses não apresentem resistências ao processo?

Maria Tereza Maldonado – No dia-a-dia, é preciso estruturar a visão sistêmica: cada indivíduo, cada grupo, cada equipe, é parte de um todo para o qual contribui dando o melhor de si. Por exemplo: eu estudo piano e freqüento uma oficina de criação musical com vários instrumentistas. Fica muito claro para cada um de nós que é preciso tocar da melhor maneira possível ouvindo o que cada um dos outros está fazendo e com o compromisso maior com a música que estamos produzindo para quem nos ouve. A música que tocamos em conjunto é maior do que cada um nós toca em seu instrumento, e será melhor na medida do empenho individual. Por outro lado, não se deve esperar eliminar resistências. Elas fazem parte do processo de mudança, precisam ser acolhidas e compreendidas para que possam ser transformadas.

 

RH – Quem recorre a essa metodologia não corre o risco de gerar conflitos entre os colaboradores?

Maria Tereza Maldonado – Os conflitos sempre acontecem, nascem das diferenças entre as pessoas. Quando resolvi escrever “O bom conflito”, escolhi esse título que muitos acham polêmico justamente para enfatizar que os conflitos são inevitáveis em qualquer relacionamento, na família, no trabalho ou em sociedade. A grande questão é descobrir como aproveitar o conflito como oportunidade de gerar soluções satisfatórias para todos. Para isso, é preciso sair da posição de adversários para “sócios do problema” e cooperar na busca de saídas para os impasses.

 

RH – A competição cooperadora oferece alguma desvantagem?

Maria Tereza Maldonado – Não vejo desvantagens, talvez porque meu olhar já esteja muito voltado para os novos paradigmas do “mundo plano” que Thomas Friedman abordou em seu livro: numa era de interconexão global, os conhecimentos, as pesquisas, novos produtos e serviços podem ser compartilhados por equipes em diferentes partes do mundo; a organização “em rede” modifica também o conceito de hierarquia, expandindo a noção de responsabilidade individual em função do todo. Tudo isso demanda um aprofundamento da noção da cooperação e da contribuição individual para o melhor funcionamento do coletivo. E isso pode ser expandido para a responsabilidade “planetária”, que tem estado em evidência quando se coloca em pauta o grave problema das mudanças climáticas e a necessidade de reverter os padrões de consumo predatório.

 

RH – Existem critérios que devem ser respeitados para que a competição cooperadora seja utilizada?

Maria Tereza Maldonado – Os critérios éticos referentes aos valores fundamentais do convívio. É claro que a competição cooperadora também pode ser usada para o mal, e isso fica evidente quando pensamos na globalização do terrorismo e nas redes do tráfico de drogas e de armas.

 

RH – Qual a principal dificuldade que as organizações encontram ao implantar a competição cooperadora e qual a melhor alternativa para enfrentar esse obstáculo?

Maria Tereza Maldonado – A principal dificuldade é a mudança do “modelo mental”: do individualismo narcisista, ou seja, “meu pirão primeiro”, que se insere no modelo “ganha-perde” – achar que tem que esmagar, eliminar, destruir os outros para ocupar um lugar melhor -, para a visão sistêmica, em que procuramos satisfazer nossas necessidades levando os outros em consideração e percebendo que se contribuirmos para que o mundo fique melhor nós também ficaremos em melhor situação – no modelo ganha-ganha. Não há fórmula garantida ou rápida para implantar a competição cooperadora: cada empresa precisará descobrir um caminho próprio, o que acontecerá se pelo menos uma parte dos colaboradores motivar-se a pensar em conjunto para elaborar uma estratégia sob medida para sua organização.

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