Ruim Com Ele, Pior Sem Ele?

É fato: nenhum relacionamento é perfeito 24 horas por dia, 365 dias por ano. Todo mundo tem seus momentos de estresse, de saco cheio e intolerância aos defeitos do outro. Conviver com outra pessoa não é fácil, mas, quando existe amor, tudo isso não tem a menor importância. O problema começa quando esse amor vira dependência. Claro que é muito confortável viver com uma pessoa que a gente já conhece e que nos conhece até pelo lado avesso, não é? Mesmo que a relação não seja lá um modelo de perfeição. Por isso, para algumas pessoas, declarar independência após o final do relacionamento pode ser pra lá de complicado. Afinal, será que existirá alguém melhor que seu antigo amor?

O ponto final

Cá entre nós, não há como negar que em todo final de romance sempre resta uma pontinha de esperança. Não dá para apagar de vez da memória todos os bons momentos vividos juntos. E são eles que ficam na cabeça de quem não consegue engolir uma separação. Pelo menos é o que diz a professora Patrícia Furtado. “Meu namoro foi bastante tumultuado, pois meu ex era bastante ciumento. Acabada a relação, eu sentia falta da nossa rotina, das coisas que a gente costumava fazer junto. Como a separação foi amigável, propus que ficássemos amigos e continuássemos saindo juntos. Eu ainda o amava e o que eu mais queria era continuar perto dele. Era ótimo, mas, ao mesmo tempo, eu sofria muito, pois sabia que, a qualquer momento, ele poderia conhecer outra pessoa e me deixar de lado. Fiquei grudada durante uns seis meses, morrendo de ciúmes de todas as mulheres que cruzavam o caminho dele, até que eu vi que não tinha mais chance de reatar e resolvi tocar minha vida”, conta ela.

É, mas há também aquelas separações que mais complicam do que aliviam um relacionamento sofrido. Há um ano e meio, a estudante Catarina Souto decidiu que era hora de dar um basta no namoro com Marcelo, com quem ficou durante sete meses. Por causa do gênio forte dele e dos ciúmes dela, a relação já estava há muito tempo indo para o brejo, embora eles se amassem loucamente. “A gente brigava feito cão e gato, mas não conseguia viver longe um do outro. Só que a relação estava se desgastando, porque toda semana tinha um quebra-pau, pelos mais variados motivos. Aí, um dia, falei que queria terminar, pois não agüentava mais tanto estresse”, relembra ela. Mas quem disse que eles conseguiram se separar? “Ficamos três meses sem nos falarmos, até que um encontro numa festa fez a gente acabar ficando junto. O resultado é uma amizade colorida, que se estende até hoje, com várias idas e vindas. A gente já percebeu que namoro não dá certo, mas não consegue ficar longe um do outro”, conta ela.

Diferenças

Não há como negar que, com o passar do tempo, os relacionamentos vão tomando formas diversas. Há aqueles que nem começam super-apaixonados, mas que passam a ter mais carinho, ciúme ou paixão. Outros fazem o caminho inverso: começam no maior fogo e vão esfriando aos poucos. E tem aqueles que ficam estáveis e os parceiros acabam se sentindo mais amigos do que amantes. Quem consegue manter a chama acesa por anos a fio, passando por cima de todas as diferenças e conflitos, parece ser exceção. “O mais incrível é que, hoje em dia, alguns relacionamentos se tornam uma sociedade financeira. Os parceiros não podem se separar porque, caso isso aconteça, os dois perdem o status ou o nível econômico desejado. Por essa e por outras razões, muitas vezes duas pessoas preferem ficar juntas a viver separadas”, comenta a psicanalista Beth Valentim, autora do livro “Essa Tal Felicidade” (Editora Elevação).

Cada pessoa enfrenta de uma forma a percepção de que o amor acabou. As inseguras, segundo Beth Valentim, preferem continuar com o outro apenas para dizer que têm alguém ao seu lado. Preferem até continuar infelizes, pois não têm coragem de assumir a vida com a liberdade que pode alcançar, soltando as amarras de um relacionamento doente. O mesmo acontece quando um dos parceiros é apaixonado e o outro nem tanto, pois já sentiu o desgaste do tempo. Enquanto isso, quem ainda sente amor faz de tudo para ficar ao lado do parceiro. É o caso da designer Luciane S., que perdeu o rumo quando seu casamento, que durou quatro anos, chegou ao fim. “Eu era apaixonada por ele, mas ele adorava sair com outras mulheres enquanto estávamos juntos. Todo mundo chamando a minha atenção para as puladas de cerca dele, mas eu sempre perdoava, pois não queria perdê-lo. O fim do casamento me deixou maluca. Eu o seguia de carro, tentava encontrá-lo nos lugares que eu sabia que ele freqüentava, queria vê-lo a todo custo. Infernizei a vida dele, porque o queria muito de volta e achava que não conseguia viver sem ele. Ele, claro, me repelindo. Até eu me tocar de que estava fazendo mal a mim mesma, levou um bom tempo”, relembra.

Recomeçar

Dar a volta por cima após o rompimento não é tarefa fácil para quem tem amor demais pelo parceiro. “As pessoas gostam de viver juntas, em comunidade. Têm medo de viver sozinhas. Por instinto, elas não querem se separar. Ao contrário, querem permanecer juntas, mas não resolvem questões que as fazem sofrer, pois deixaram passar muito tempo e as mágoas estão profundas. A ideia de separação fere esse instinto básico e essas pessoas ficam muito sofridas”, comenta Beth Valentim. A professora Patrícia Furtado concorda. “No começo dói muito, mas depois que a gente acorda dessa loucura de querer permanecer no caminho do outro é que percebe que todo o tempo investido poderia ter sido aproveitado de outra forma, até mesmo abrindo caminho para outra pessoa”, observa.

Desenvolver a autoestima é fundamental para se livrar da dependência de um relacionamento falido. Por isso, nada de ficar parada em casa! Sair com os amigos, conhecer gente nova, fazer cursos, entrar numa academia ou até mesmo viajar podem ser uma ótima forma de mudar o foco do pensamento e das atitudes. Se ainda assim estiver difícil, vale a pena procurar ajuda de um psicoterapeuta, para trabalhar sentimentos como insegurança e esclarecer algumas questões íntimas. Até mesmo livros sobre relacionamento podem trazer diversas questões para refletir. Beth Valentim lembra que a espiritualidade também pode ser uma grande aliada. “A fé é um caminho que pode levar a pessoa a se encontrar, a refletir melhor. É importante estar perto de Deus nesses momentos. Você pode se surpreender”, diz a psicanalista.

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