Sob As Sombras De Suas Asas

Agrada-te do Senhor, e Ele satisfará os desejos do teu coração”. Davi

Quando criança, bastava um olhar do meu pai para orientar meu comportamento. Não havia espaço para pirraças, teatros, constrangimentos, desrespeito. Meus limites eram bem definidos, o que se por um lado deixava pouco espaço para possíveis negociações ou reivindicações, por outro gerava em mim segurança, ajustamento e equilíbrio.

Desde pequeno, trabalhava ajudando nas atividades do sítio; naquela época, trabalhar não era proibido. Possuía minhas tarefas que, salvaguardando as devidas proporções, eram as mesmas dos adultos. Sobrava tempo ainda para brincar, estudar, ler bons livros, mesmo que sob a luz de lamparina. Quanto ao meu pai, sabia que precisava agradá-lo, pois do contrário as conseqüências poderia ser doloridas. Lembro, no entanto, de uma única e bem merecida surra que dele levei. Lembro também que não fiquei traumatizado; ao contrário, senti-me aliviado, com a dívida paga, tudo certo. Naquela época, não era proibido dar umas palmadas. Longe de traumatizar, o chinelo era um excelente psicólogo. Agradá-lo, portanto, era condição sine qua non para garantir um “bumbum” fresquinho e feliz.

Quanto às minhas filhas, também ganharam umas palmadas quando criança e, ao contrário do que alguns pais dizem, não doeu em mim, doeu foi nelas mesmo. Também não ficaram traumatizadas e hoje são mulheres bem sucedidas; estão muito bem, obrigado! E se algum dia Deus me alegrar com netos, vou sugerir às minhas filhas manter uma “terapeuta havaiana” de plantão também. Como “mães suficientemente boas”, lembrando o pediatra e psicanalista Donald W. Winnicott, caberá a elas educar seus respectivos pimpolhos e a mim, “perfeito vovô”, lembrando a mim mesmo, “estragá-los”.

Mas voltando ao meu pai, agradá-lo era sinal de juízo! Caso contrário, eu ficaria exposto à ira paterna; o mais sensato, portanto, era buscar sua aprovação. O sentimento era de respeito, beirando o medo. Meu comportamento ajustava-se à vontade dele, objetivando não ser punido, e quem sabe até ser recompensado.

Com o passar dos anos, a infância deu lugar a adolescência, a juventude, a maturidade. Com a vinda de minhas filhas aprendi a ser filho e sei que com a vinda dos netos aprenderei a ser pai. Quanto ao meu pai, fui percebendo que mais importante do que agradar a ele era agradar-me dele, amá-lo pelo prazer e alegria que este amor proporcionava ao meu coração. Passei a sentir prazer em sua presença e saudade na ausência, além de percebê-lo desejável e imprescindível. Quanto ao relacionamento que Deus espera estabelecer com seus filhos, o Rei e poeta Davi, no livro dos Salmos, declara: “Agrada-te do Senhor (Deus), e Ele satisfará os desejos do teu coração”. Aqui é decisivo atentar para a diferença entre agradar de Deus e agradar a Deus. A primeira, expressa maturidade, confiança, espontaneidade, prazer e amor, enquanto o segundo se processa em meio a sentimentos de culpa, medo e constante busca de absolvição e aceitação.

Para Davi, a presença divina, ao se tornar fonte de prazer, cria na alma tal espontânea dependência de Deus que a liberta de todo fardo ou enfado. Deixa de ser um peso religioso, um ter que, desaguando em desejável deleite. O experienciar de tal magia mística levou o rei poeta a escrever: “Na Tua presença há plenitude de alegria, a Tua destra delicias perpetuamente”. Agradar a Deus pode até gerar o senso de dever cumprido, de desencargo de consciência, de alívio por ter feito a coisa considerada certa ou esperada, de ajustamento às exigências religiosas, mas a satisfação dos desejos mais profundos do coração – sonho de consumo da alma – só é alcançada quando Deus torna-se agradável à existência. Para Davi, a satisfação do coração está diretamente relacionada ao prazer, que só é possível em íntima comunhão com Deus.

Para Jesus, as cargas impostas pela religião não lhe passaram despercebidas. Dirigindo-se aos líderes religiosos ele diz: “amarram fardos pesados e os põem nas costas dos outros, mas eles mesmos não os ajudam, nem ao menos com um dedo, a carregar esses fardos”. Observou ainda que “os religiosos rodeavam a terra e o mar para fazer um convertido; e, uma vez feito, o tornavam duplamente filho do inferno”. Como psicanalista, verifico com freqüência o “inferno”, os estragos psíquicos e somáticos advindos das sobrecargas e inverdades religiosas. Existem pessoas que até admitem que a religião (igreja) não salva ninguém, o que ainda não percebem ou não admitem é sua capacidade de condenar.

É em face de tão castrante escravidão religiosa que Jesus convida a todos para o aconchegante descanso, disponível à sombra da Vida Crística. São do incomparável Mestre Jesus as maravilhosas palavras: “Vinde a mim, todos vós que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para vossa alma. Porque meu jugo é suave, e o meu fardo é leve.”

Lamentavelmente, a religião, via de regra, povoa a mente humana de medo do “Pai nosso”. Cria um Deus à imagem e semelhança do ego humano, transforma o Deus de Amor em um Deus de ódio, punição e vingança. Lança mão de uma das formas mais nefastas de domínio: o domínio pelo medo. Tal concepção leva à fuga de Deus, da divindade que precisa ser agradada, cuja ira precisa ser aplacada. A religião, para mim, corresponde ao tempo em que, ainda criança e movido por medo, buscava agradar meu pai, enquanto que a vida Crística, a Espiritualidade, corresponde à maturidade e à consciência expandida, que tornou meu pai agradável ao meu coração. Penso que São Paulo chegou também a esta conclusão. Iluminado pela Luz Crística, que o permitiu romper com os tentáculos e ventosas da religião, o apóstolo declara: “quando era menino, falava como menino, sentia como menino, pensava com menino; quando cheguei a ser homem, desisti das coisas de menino”.

Paulo deixou de ser menino quando passou a trilhar o caminho “sobremodo excelente” e mágico do Amor. Amor que define o próprio Deus, que torna o ser humano identificado como filho da Luz. Amor que não se deixa aprisionar, que não precisa de leis, pois é a Lei que governa o Universo.

Assim como meu saudoso pai, Deus se tornou agradável para mim e como Davi posso declarar: “sob as sombras de Suas asas canto jubiloso” e ainda “mais alegria me puseste no coração do que a alegria deles”.

A paternidade Divina em muito difere da paternidade humana; o “Pai Nosso” é Deus de Amor, é Luz e não há nele sombra alguma.

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