Suicídio Nas Empresas

O que pode motivar alguém a cometer suicídio dentro do ambiente de trabalho?
Problemas emocionais, depressão, falta de sentido para a vida, estes são os motivos que geralmente fazem com que um ser humano dê fim à própria vida. Os locais e formas escolhidos também são os mais diversos. Porém, é no mínimo estranho e algo a se pensar quando a pessoa escolhe justamente o seu local de trabalho para dar cabo à sua vida.
O caso ocorrido na empresa France Telecom (telecomunicação), na qual 24 funcionários se suicidaram num espaço de aproximadamente dezoito meses, deveria estar sendo discutido por empresas no mundo todo, que após reestruturações radicais esquecem-se na prática daquilo que não cansam de falar teoricamente e apenas da boca pra fora: A gestão de pessoas!
Pessoas não são como caixas que podem ser transportadas e mudadas de lugar apenas para se tornarem mais lucrativas e atraentes aos acionistas. Pessoas são um mundo à parte. O próprio ex-presidente da empresa, Sr. Didier Lombard, disse ao Europ1 (citado no jornal Le Monde): “Creio que subestimamos um certo número de parâmetros humanos”.
Os sinais sem dúvida foram muitos, mas a ganância foi maior ainda. O desequilíbrio entre o resultado e pessoas ceifou dezenas de vidas.
Quando soube da notícia dada num grupo de RH de uma forma pouco informativa, fui imediatamente atrás dos fatos. Afinal, o assunto gestão de pessoas faz parte do meu escopo profissional, e há muito me preocupa a total falta de dados, informações e pesquisas de âmbito nacional quanto ao tema: Saúde mental.
Infelizmente a mídia brasileira publicou pouco sobre tão intrigante assunto. Minha expectativa era de que as empresas brasileiras começassem a discutir tão relevante tema: pessoas versus resultados, impactos e medidas de saneamento mental. Ledo engano! A pesquisa que fiz, inclusive para escrever este texto, foi calcada em jornais e revistas europeus; neles, encontrei pessoas de fato preocupadas com o nível de “stress” presente no trabalho na contemporaneidade. Enquanto pululam nas livrarias brasileiras livros e mais livros de administração no qual se tem a impressão que todos vivenciam em suas empresas realidades de felicidade contínua, no mundo real o que se vê é: alto nível de stress; repetição de comportamentos extremamente competitivos no trânsito e em outros locais, à semelhança daqueles adotados nas empresas; busca incessante, por parte de muitos profissionais, de modelos comportamentais prontos, fazendo com que o ambiente organizacional mais se pareça com um teatro do que com um local de trabalho; pessoas ainda vítimas de chefes sociopatas que não se poupam em humilhar e acabar com a autoestima de seus funcionários; nível de doenças psicossomáticas em crescimento; gente que toma remédios e mais remédios, alopáticos ou não, para vencer a todo custo a dor existencial causada pela insatisfação no trabalho.
Assuntos como este parecem brincadeira no Brasil. Infelizmente, estatísticas sobre o tema são pequenas por aqui. O sentido psicológico do acidente de trabalho, por exemplo, ainda é um dos poucos temas que ainda é alvo de pesquisas. Por outro lado, parece que é preocupação de poucos, muito poucos, o impacto gerado por mudanças e mais mudanças, feitas sem preparo algum por parte de muitas empresas e sem a efetiva competência daqueles que escolheram na vida trabalhar com pessoas. Parece até que a França é o único país que contabiliza suicídios no escopo organizacional. Será que por aqui isto também não ocorre, mas fica sob os tapetes e carpetes limpos de muitas empresas?
Suicídios todos sabem nem sempre são devidamente contabilizados pelos hospitais como tal. Ainda há certa vergonha de se encarar o tema, que é difícil e complexo. Mas sintomas tais como “stress”, depressão e infelicidade constante fazem parte do repertório de todos aqueles que atendem pessoas em consultórios, como médicos e psicólogos. Fazem parte também dos atuais coaches. Aquilo que não é revelado pelas empresas, e muita vez é até menosprezado por elas, como foi o caso da France Telecom, tem seu reflexo nestes lugares. Raramente empresas, através de seus dirigentes ou profissionais de RH, interessam-se em saber ou conversar com estes profissionais da saúde mental para saber se aquilo que se passa nas quatro paredes dos consultórios tem origem no ambiente empresarial. Parecem mundos diferentes e distantes, o que não é verdade. Esquecem-se que o trabalho afeta sobremaneira a nossa vida nos dias de hoje. E principalmente a forma como muitos dirigentes lideram suas empresas deixam pessoas sem escolha, minadas naquilo que têm de mais precioso: suas vidas.Suely Pavan – pavandesenvolvimento.com.br
Recebido de Celi Fontes

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