Um Fato, Duas Versões

Uma das coisas que considero mais interessantes na vida é observar como um mesmo fato é capaz de provocar interpretações muito diferentes, opostas até. E meu interesse aumenta quando a situação envolve os mais novos.

Esse fenômeno acontece por um motivo simples, nem sempre reconhecido: os pontos de vista de cada um que olha são bem diversos. Por exemplo: quando é o pai que coloca seu olhar sobre o filho, ele vê algo que pode ser bem diferente do que capta o olhar da mãe, não é verdade?

Pois hoje temos uma prova interessante a esse respeito: duas mensagens comentando a mesma situação, que envolve crianças entre quatro e seis anos, mas com abordagens bem distintas.

Um dos pontos de vista é o de uma mãe e o outro, de uma diretora de escola de educação infantil.

Nossa leitora, mãe de um garoto de cinco anos, escreveu para reclamar da escola onde matriculou seu filho.

Ela diz que, apesar de ser nova na idade, pratica o que chama de “educação à moda antiga” com o filho. Faz o menino respeitar os mais velhos, o ensina a falar sempre “obrigado” e “por favor”, não admite palavrão tampouco teimosia exagerada.

Depois de contar tudo isso, a leitora aliviou um pouco: “Sei que ele é uma criança, só exijo dele o que ele pode fazer”, explicou.

O problema, segundo essa mãe, é que o garoto tem aprendido a fazer tudo o que ela não quer na escola. Agora, ela enfrenta um filho teimoso, bravo e rápido no palavrão. Nossa leitora acredita que o menino só pode trazer isso da escola, já que, em casa, não tem oportunidade de aprender essas coisas.

Já a diretora da escola reclama da falta de educação das crianças -e responsabiliza os pais por isso.

Ela diz que crianças bem pequenas, desde os três anos, se comportam na escola como adolescentes rebeldes: xingam os colegas, brigam com eles pelos motivos mais banais e resistem muito a obedecer os professores.

Essa outra leitora tem uma convicção: a de que as crianças assim se comportam porque, em casa, os pais pouco ensinam, por terem pouco tempo para estar com os filhos e, consequentemente, não querer desgastar o relacionamento com eles ensinando uma boa convivência, o que, convenhamos, dá muito trabalho.

Quem tem razão nessa história, afinal? São os pais que não educam seus filhos ou é a escola que dá chance para os alunos aprenderem o que não deveriam?

Poderíamos dar a razão a qualquer uma das interpretações. Mas, se considerarmos as crianças, podemos problematizar a situação para os dois pontos de vista.

De largada, vamos ter de admitir que são prerrogativas das crianças a provocação, a transgressão e também o ato de desafiar.

É só por causa disso que elas falam palavrões, mesmo sem entender o significado do que falam.

Mas uma coisa entendem: que fazem algo que provoca o adulto. É também apenas por isso que desobedecem, provocam seus pais e professores e testam mil vezes as imposições e os impedimentos que lhes colocam.

Além disso, precisamos considerar que, no mundo contemporâneo, as crianças não são mais educadas apenas pela família e pela escola. A cidade educa, a mídia educa, a sociedade educa etc.

Pronto: apenas esses dois pontos são suficientes para nos ajudar a entender que, quando uma criança faz algo que não deveria fazer, pode não estar nem na família nem na escola a responsabilidade por esse fato.

Mas de uma responsabilidade essas duas instituições não escapam: a de insistir nas boas lições, cada uma à sua maneira.

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