Vigiar E Punir Na Sociedade De Controle

O poder do homem sobre o homem começou desde que o ser humano sentiu a necessidade de multiplicar-se e evoluir culturalmente; foi justamente na passagem da modernidade para a contemporaneidade que ocorreu a mudança de um modelo social. O mundo foi se desenvolvendo e como consequência ampliou-se a importância da atividade de controle de uma minoria poderosa sobre a massa.

Com isso, as instituições sociais modernas produzem indivíduos muito mais móveis e flexíveis socialmente do que antes. Dessa forma, mesmo que o trabalhador esteja fora de seu local de trabalho, continua a ser intensamente governado pela lógica disciplinar. Michel Foucault nos apresenta o modelo disciplinar, representado pelo Panóptico, que nada mais é do que a máquina óptica do Século XVIII, que tanto serviria para prisões, quanto para hospitais, escolas e fábricas, e visava manter em constante vigilância as pessoas que, por algum motivo, poderiam infringir ou já teriam infringido as leis.

O Panóptico faz uso de dois modelos: o da exclusão e o da disciplina. O principal objetivo desta “máquina” é fazer com que as pessoas tenham total consciência de que podem ser vigiadas a qualquer momento e saibam que serão punidas se faltarem com a ordem, caso alguém esteja vigiando.

Essa introdução retrata parte da vida humana na atual sociedade, cuja função é disciplinar, vigiar e punir as pessoas inseridas no mundo corporativo. As organizações cada vez mais preocupadas com segurança, com aumento de produtividade e com redução de custos, apelam para as mais variadas formas de vigilância, adotando mecanismos mais sofisticados de controles invisíveis.

Nesse caso vemos desde programas de monitoramento de atividades em computadores, câmeras instaladas em diversos pontos, relógios de ponto eletrônico digitais, para se ter a certeza de que o funcionário está na organização; catracas para controlar o movimento entre os departamentos, como se todos ali participassem de um grande programa de “Big Brothers”. Além disso, as empresas também analisam conversas por telefone, pela central de telefonia, em que os monitores podem entrar em ligação sem que ninguém perceba, tudo em nome do controle da qualidade. Os sistemas permitem ver o ramal que ligou e a duração da conversa.

Para se evitar problemas de ordem legal, geralmente a política das organizações é transparente, expondo ao funcionário, na hora da contratação, algumas punições que podem chegar à demissão. Com isso, os dispositivos de poder ficam circunscritos aos espaços fechados dessas instituições, o que lhes permite atuar em todas as esferas sociais.

O que presenciamos na sociedade de controle é que houve uma espécie de incorporação da disciplina, por meio da presença de algum tipo de autoridade investida de poderes capazes de impor os procedimentos de poder e de saber, através do olho que vigia e pune.

E nesse dinâmico mundo disciplinar, vence quem padroniza o seu comportamento, ao perder sua intimidade e sua identidade; aquele que se afasta de seu “eu” e ao final acaba sendo produto e produtor desse desumano modelo social que nós mesmos ajudamos a manter. Não somos simples marionetes deste jogo de forças, como pensamos, mas, sim, co-autores dele, ao nos adaptarmos e silenciarmos diante dele com naturalidade, como se fosse mesmo natural passarmos de pessoa humana à cifra, e ainda ajudar a manter esse estado de ser ou de “não-ser.”

Maria Bernadete Pupo

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *