Você Se Anula Em Nome Do Amor?

tocDevemos nos anular em nome do amor ou essa atitude é totalmente maléfica e negativa?

Rosana Braga: Toda vez que uma pessoa se anula ou tenta anular o outro, mesmo que inconscientemente ou em nome de um suposto amor, a relação se desequilibra. Duas pessoas decidem ficar juntas porque se olharam e se desejaram, mas quando um dos dois não se coloca, não ocupa o espaço que lhe cabe nesse encontro, está de fato se descomprometendo, ainda que não seja sua intenção. É como não estar presente no amor.

Ainda são muitas as pessoas que se anulam em nome do amor? Como podemos explicar esse tipo de comportamento? O que leva as pessoas a agirem assim?

Rosana Braga: Infelizmente, muitas pessoas ainda acreditam que se anular é uma prova de amor. Como se isso fosse o contrário de egoísmo, num bom sentido. Mas não é! Todos nós temos de estar atentos, diariamente, para encontrar – junto com quem a gente ama – a medida mais próxima do razoável e satisfatório para cada um nesta relação. Não dá para dizer que os dois serão iguais, mas é preciso que haja ao menos um desejo de equilíbrio, uma disponibilidade para que os dois tenham vez. Quem não diz o que sente e quer e ocupa o lugar de quem sempre cede, está ‘estragando’ o outro. É como se aquele que se anula estivesse pedindo para o outro se tornar cada vez mais egoísta.

Mulheres tendem a se anular mais do que os homens nos relacionamentos? Por quê?

Rosana Braga: Porque a nossa cultura ainda traz muitos resquícios do patriarcalismo, do machismo que imperou durante muito tempo. E essa cultura ditava que as mulheres deveriam se submeter aos desejos dos homens. Então, ficou subentendido que as mulheres sao mais compreensivas e se importam menos com seus próprios desejos e sentimentos, sempre dando espaço para que seus parceiros se satisfaçam. Mas essa dinâmica vem se mostrando cada vez mais ineficiente. Atualmente, vemos muitas mulheres (a maioria de forma inconsciente) querendo ‘revidar’, pagar com a mesma moeda. Cansadas e com raiva de terem sido submetidas por tanto tempo, elas querem agir ‘como se fossem homens’. Ou seja, não estão dispostas a olhar de verdade para seus parceiros. Na verdade, elas morrem de medo de cair no padrão antigo e se mantém defendidas, como se o amor fosse uma guerra entre os sexos, entre o feminino e o masculino. Enquanto não nos dermos conta de que o amor é uma dança, um encontro que pode acontecer com suavidade e lugar garantido para ambos, continuaremos nos sentindo frustrados e como se faltasse algo.

Até onde devemos ir por amor? O que devemos permitir?

Rosana Braga: Penso que não existe uma medida pronta. Cada dia é um. Cada situação é única. É por isso que a atenção e o cuidado constantes num relacionamento são tão importantes. É preciso se questionar, observar os próprios sentimentos, aprender a identificá-los a cada momento. E também é preciso aprender a ouvir o outro de verdade, com amor, tentando acertar e encontrar a medida que seja boa para os dois. Claro que ora o desejo de um se sobreporá ao do outro, mas é preciso que isso seja uma escolha. Isso é maturidade e exercício de amor. Quem permite tudo não está amando e sim optando pelo lugar de vítima, como se o amor tivesse de ser um sacrifício, um sofrimento. Essa ideia já se mostrou ultrapassada. Agora, a busca é pela prática da comunicação e do respeito mútuo.

Quais são os riscos de ser muito permissivo nos relacionamentos?

Rosana Braga: Risco de desaparecer desta relação. De se sentir cada vez menos motivado, mais triste e mais vitimizado. E o mais curioso é que, em geral, é o outro que perde o interesse por aquele que se anula o tempo todo, que permite tudo. Quem não se coloca perde o brilho, perde seus encantos naturais. E o outro termina buscando presença em outro lugar. Pessoas permissivas demais costumam ter problemas de autoestima e insegurança. Com medo de não serem amadas, preferem aceitar tudo e não brigar. Acontece que as diferenças sao como vitaminas para o amor. Faz a gente crescer, aprender, amadurecer. A ideia não é evitar os desentendimentos e sim aprender a se desentender como gente grande. Isto é: sem ofender e desrespeitar o outro, sem se comportar como criança mimada que tem de conseguir o que quer a qualquer custo. As brigas podem ser essenciais para que uma relação se estabeleça com confiança e verdade. Mas, para isso, os dois têm de encontrar e ocupar seu lugar neste encontro.

Qual é o caminho? Como conquistar o equilíbrio na relação?

Rosana Braga: Com atenção e consciência. Se for muito difícil sozinho, o ideal é procurar ajuda de um profissional para se conhecer melhor e saber quais sao as crenças que estão ditando esse comportamento de se anular e ser tão permissivo. As vezes, a pessoa assistiu esse tipo de dinâmica entre os pais a vida toda. E agora, sem se dar conta, repete um desses lugares nas suas relações. Para mudar, é preciso compreender o que se quer de verdade. É preciso perceber que existem outras dinâmicas mais satisfatórias e que garantem bem mais felicidade no amor. Mas isso tem a ver com saber de si, com se gostar, com acreditar que merece ser amada sem ter de se comportar como capacho ou como a pessoa ‘mais boazinha do mundo’. Isso não existe. Não é do ser humano ser bonzinho o tempo todo e nem concordar com tudo. Uma hora, a raiva e a tristeza vão aparecer, de um jeito ou de outro, para dentro ou para fora. E cada um de nós terá de lidar com as consequências de todas as vezes em que não ocupamos o nosso lugar no mundo.

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